sábado, janeiro 02, 2010

Considerações poético-burocráticas

Pois é...
Na verdade, penso que o blog tem 'Gigas' de sobra para a demanda de minha expressão...
Sempre tive o blog como sedimento, minha virtual utopia transfigurada em depósito de expressões e pensamentos concretos e consistentes...E assim o tenho feito.

No entanto o 'eu' que se apodera de minh'alma tem sido cada vez mais inconstante, preguiçoso e vago fazendo assim com que meus inícios de expressões não obtivessem força o suficiente pra se auto-concretizarem.

Com o advento do meu vício pelo Twitter, esses murmúrios de expressão ocupavam um lugar privilegiado de 140 caracteres que sempre me permitiam fragmentar ainda mais minha expressão literária e minhas experiências e devaneios pessoais...

O que parecia um prenúncio de abandono do blog acabou estimulando a transitoriedade que cerca meu 'eu'...

Prometo, no entanto, que a minha ferramenta contemporânea reviverá minhas atribuições românticas. Isto é, pretendo continuar utilizando o blog.

Bem, pelo visto, a minha digressão e prolixidade continuam as mesmas, ne?

Paradoxo, Psicolingüístico, nomeie o quanto quiser. Mas ainda sim, garanto que à resposta não chegarás. Porque estou sempre no entre-lugar dessa caminhada...

sexta-feira, outubro 30, 2009

"As sinonímias são sempre imperfeitas e as onomatopéias para o silêncio também"

by
MARTINS, V. Onde nascem as borboletas. Ed. Blogspot. RJ. 2009

sexta-feira, setembro 18, 2009

Boa Sorte

Da noite pro dia
Nem sabia que aquela seria a última vez que eu a via
Da noite pro dia
Ela sorria e me garantia estar na maior alegria
Da noite pro dia
A ironia é serventia por conta da casa vazia
Da noite pro dia
Da noite pro dia

Então ela me deu um beijo no rosto e disse "Boa Sorte". Daniela. Sempre ela. Às vezes confundida com Gabriela, mas sem cravo nem canela. Feia, mas de personalidade. Virou o rosto de forma agressiva e saiu pela rua sem olhar pra trás fazendo barulhos insuportáveis com aquele salto alto. Presente. Odeio mulher que não sabe andar de salto alto. Exceto ela. Tinha certeza de que aquela cena era uma despedida. E assim que a última expressão foi dita, mentalizei canções de Vanessa da Mata & Ben Harper. Essa era Daniela na TPM. Mulheres que entram e saem da sua vida quando bem entendem são as mais ardilosas, principalmente durante a menstruação.


Pena dela. Perdeu a oportunidade de conviver comigo por mais tempo, pelo menos por hoje. Pena de mim, que me vanglorio perante o espelho por estar mais um dia sem ela e ainda assim continuar vivendo. Valia mais do que o troféu que recebi, por méritos duvidosos, do AA. Um ano sem uma gota de álcool. Não adiantou nada. Resto da vida sem uma gota de Daniela. Me recompus. Atrasado e confiante, pensando que Daniela iria, mas voltaria, iria de novo, mas voltaria de novo, como ela sempre faz, corri para não perder o 455.


Cheguei à conclusão de que coisas insólitas acontecem todos os dias. Cabe a você procurar motivos para tais eventos ou então banalizá-los. O mais importante é nunca ser o bonzinho da história. Prefira ser o canino ou o filho da puta. Assim, você nunca será subestimado e nunca vai conhecer um tal de amor-próprio que só serve pra deprimir as pessoas.


Corri, juro. Mas não consegui alcançar o ônibus. Nesses momentos em que me sinto psicologicamente atrasado e não apenas cronologicamente, sei que meu chefe está feliz. Sei também que ele já está na agência, sentado na recepção esperando o elevador abrir para, num sistema robótico, olhar para o relógio e para mim por 3 vezes seguidas religiosamente. A dramatização começa quando ele finge que vai me demitir e eu finjo que fico intimidado com a fisionomia séria dele. Na verdade, ele não faz isso porque se preocupa comigo, mas por prazer, porque isso é felicidade para ele. Ele tenta fazer da felicidade um costume. Quando eu chego no horário, ele me torna invisível. Odeio gente que não gosta de encarar a própria infelicidade. Exceto eu. O mais importante é nunca dar trela para um idiota, a menos que o idiota seja você.


Nunca disse que achava a Lei de Murphy justa. Leis foram criadas para favorecer uns ou outros. Se o beneficiário sou eu, certamente a lei está errada. Se fui correndo que nem um imbecil atrás de um ônibus que não parou e a cena deprimente foi vista por uma amiga da Daniela, ou se sofri por amor e por isso cheguei 20 minutos atrasado na agência, certamente a lei está certa.


No elevador tem um smiley que diz: "Sorria, você está sendo filmado". Acho estranho "está sendo" porque seria a mesma coisa dizer "é". As pessoas são prolixas, gostam de usar duas palavras quando apenas uma letra resolveria: "está sendo", "boa sorte". Se tudo que esperam de mim é um sorriso, eu sorrio. Sorrio no elevador, ponho o dedo no nariz, faço careta para a câmera, ou para o smiley sorridente; se tivesse alguém ali, eu treparia. Afinal, são 15 andares, tempo suficiente. Meu vídeo iria parar no top list do Youtube por uma semana, até algum ex-bbb se embebedar e dançar pelado na praia de Copacabana. Meus 15 minutos acabariam neste instante, mas ainda assim me restariam 15 andares de puro sorriso.


A verdade é que não se pode levar o ser humano a sério. Não se pode querer construir um relacionamento, uma família. Não se pode querer uma pessoa pro resto da vida. Simplesmente porque na vida você só vai encontrar filas. Filas no médico, no supermercado, no banco, na lavanderia, no cinema, fila de ônibus, de motel, de parque de diversões. Até pra fazer primeira comunhão tem fila. Fila pra gerar uma filha, para animais, cães principalmente da raça Fila. Fila para recolher as fezes dos animais mimados que andam pelo calçadão achando que o mundo é um penico gigante. Fila para pisar no cocô e fila para tirar a massa marrom entranhada no tênis cuja textura pastosa se desfarela em contato com água e escova escorrendo ralo abaixo até encontrar um esgoto, seu lugar.


Esse ser humano que pisou na merda de cachorro vai praguear com palavras ofensivas um outro ser humano que certamente estará no conforto de seu lar, numa cobertura qualquer, deitado em lençóis limpos, cama limpa, sofá perfumado e que nunca repete roupa. São seres humanos que de tão imundos chegam a criar anticorpos para tudo, enquanto o ser humano que não tem cachorros concorda religiosamente com o destino a que fora submetido. "Pisei na bosta" Amém. "Estou fedido" Amém. "Nem tenho cães" Amém. "Vou ter que limpar meu sapatênis. "Amém.


Bem, escatologia não é falar de fezes caninas, mas da sujeira do mundo, da nojeira do ser humano. Veja as próprias celebridades que se recusam a ir pro Centro de Reabilitação por achar emque são a personificação da atitude. Se bem que passei pelo AA, mas ainda continuo um estorvo para mim mesmo. Lembro que na época, ouvia muita música internacional. utilizava como toque do meu celular. Hora do almoço. 2 horas inteiras de ócio. Não posso ficar no ócio. Estou de dieta.


Lamento por todos que foram privados de minha companhia no almoço, mas principalmente por Daniela, que vai voltar arrependida pros meus braços, para logo depois se desarrepender e virar o rosto de forma agressiva enquanto compõe uma sinfonia desafinada com seu salto alto. Dane-se Daniela. Nos conhecemos num período crítico de nossas vidas. Eu pensava em me matar e ela achava que era lésbica.


Enquanto eu estava num banco de praça lendo uma revista sobre Web Design, ela me avistou do ônibus. Preguiçosa demais para pensar em seus próprios problemas, ela ficou me observando. E num curto momento em que eu fui espantar um pombo de perto do banco, cruzamos olhares.
Naquele momento, concluiu que era eu o grande amor de sua vida. Desceu correndo do ônibus e veio em minha direção. Esbaforida e meio tímida. Chegou perto de mim e se apresentou como Julia Roberts. De cara percebi seu complexo de inferioridade. Isso me ajudou a superar minha timidez. Dali em diante concluí que ela era louca. Freud nem Lacan explicariam. Mesmo com vergonha dos meus dentes separados, sorri.


Apenas sorri e quando percebi que meu silêncio constrangia nossa conversa e que eu estava a ponto de perdê-la, desandei a falar, falar, falar coisas sem sentido, semi-organizadas e confusas, mas que surtiram efeito. Tivemos uma tarde feliz no balanço do playground, na sorveteria e no Sexy Dreams. Foi lindo.


Sempre senti nojo daquele doce com pozinho azedinho onde enfiávamos o pirulito já babado para recolocar na boca. Naquela noite não me importei em compartilhar aquilo com Daniela, mesmo depois do sexo oral que ela fez em mim. Nem fui egoísta de não dividir aqueles chicletinhos quadradinhos que vinham numa embalagem onde tinha uma carinha com um sorriso. Definitivamente interpretei aquilo como amor. Amor pro resto da vida. Amor pro resto da morte. Sempre soube que não haveria espaço pra mim na vida dela e nem pra ela na minha vida. E digo isso sem nenhuma melancolia. Odeio essas pessoas que não têm o que fazer e ficam procurando depressão onde não existe. Exceto eu.


Me masturbo com a mesma facilidade que distribuo sorrisos falsos. Ambos me ajudam a viver relativamente em paz com os outros e me livram do suicídio.


Acho que estou falando mais do que o que vim aqui abertamente falar. Não importa quantas vezes Daniela vai embora. Haverá as brigas, os tapas, os beijos e abraços, os momentos de reconciliação, de intimidade e de vergonha que passei só para agradá-la. Lembro daquela vez em que ela me pediu pra imprimir pornografia na agência porque não queria gastar tinta de sua impressora. Então, aproveitei um momento de calmaria no trabalho, liguei a impressora. Eis que surge o meu chefe. Diria até que tinha adivinhado que eu estava fazendo merda. Então, surge meu chefe caminhando em câmera lenta na minha direção. Pálido, puxei os papéis, que murphymente agarraram na multifuncional HP. Sinto em informar, mas discrição não é o forte para alguém da minha altura.


Publicitário, 29, Demitido. Encontrado com pornografia em ambiente de trabalho. Isso era o que passava pela minha cabeça ao ver aquele velho disforme na minha direção. Ele se aproximava e a máquina fazia barulhos estranhos por causa dos papéis entulhados.


Parou do meu lado e perguntou: "O que está acontecendo?" Mostrei minhas mãos sujas de tinta preta e disse: "Mandaram imprimir alguma coisa aqui, mas o papel atolou", com a maior naturalidade do mundo. "Deixa que eu tiro então", disse com aquela voz rouca, num tom de impaciência e briga típicos de viciados em charuto. "Não, não. Faço questão, Seu Moacyr", disse eu, num esforço sobrehumano para parecer solícito, desafiando assim minha natureza. Ele puxou um papel da minha mão, tinham uns contornos pontilhados bem falhados no papel amassado e borrado. "O que é isso?", perguntou arqueando as sobrancelhas. "Não sei..." disse, reticente. Jogou o papel no chão, fez um comentário incompreensível sobre a imaturidade alheia e seguiu seu rumo. Ao perceber uma pequena gota de suor na minha testa, tive mais uma conclusão sobre a vida: o mais importante é sorrir. Mesmo que esteja prestes a ser demitido, sorria. Mesmo que esteja odiando as pessoas à volta, sorria. Mesmo que seus impulsos percam para as viadagens do seu superego, sorria. Ao ajudar os outros, você sempre se ferra. Ainda assim, sorria.


Uma vez, um diretor de arte bem experiente veio me perguntar quem tinha trocado as cores do banner que ele fizera. Claro que tinha sido eu, num dos raros momentos em que tive poder. Não concordei com o gradiente rosa da campanha, mudei pra vermelho que é quase a mesma coisa, ninguém notaria. Ele desconfiou que tinham mudado e sabia que fora eu. Percebi pelo "veja bem". Odeio essas expressões que disfarçadamente nos preparam para um sermão. "Veja bem, quando você viola uma lei..." "Veja bem, o que acontece é o seguinte" "Veja bem, o fato de você ter feito aquilo". Gosto de tudo direto. "Por que você trocou a cor do banner que eu, super-fodão, fiz?" Por que ele não chegou logo assim? Ficou esperando uma confissão? Se não tinha dito no momento em que alterei a cor, o que o leva a crer que darei minhas mãos às algemas dele logo neste momento? Que tipo de poder ele acha que exerce sobre as pessoas? Odeio gente que vive de rodeios pra tentar manipular o outro. Exceto eu. E o mais importante é negar sempre, até a morte. Mesmo que ninguém acredite em você.


O mais importante também é destruir os inimigos aos poucos. Ultimamente tenho sabotado os vídeos publicitários de um colega retardado da agência. Comecei com uma difamaçãozinha aqui, uma fofoca acolá. Depois aumentei. Uma ediçãozinha mal-feita, um corte onde não deveria, inclusão cenas para o comercial passar de 30 segundos, alteração na cor, no contraste, no som. Enfim, nada disso adiantou. Nada contribui para a derrocada alheia. Ele não perde a arrogância nunca.


A última que pensei foi em pôr dinamite no carro dele para assim que ligasse a chave, o acidente acontecesse. Em tese, faria um bem ao meu ego, pois não teria que aturar competição de gente arrogante, teimosa e burra. E, claro, meu país agradeceria, pois minha atitude só faria gerar mais empregos.


Óbvio que não quero que meu nome vá parar na mesa da Dona Carmem. Mas quando falo em Carmem imagino logo uma gorda cheia de varizes, com cara de traquinas, vocalista de um grupo de música indiana o qual jura que faz sucesso. E, claro, muito mau-hálito. É assim que gostaria de encontrar Daniela: gorda, expulsa de um cortiço e jogada na sarjeta sustentando fiapos de dignidade.


Tá bom, confesso. Só penso nisso de vez em quando porque no fundo eu só quero o bem dela, quero bem a ela, mesmo achando que fosse melhor o contrário. Da última vez que Daniela foi embora foi por causa de Raíssa, minha vizinha. O estopim da separação foi quando adicionei a Raíssa no orkut. Ela negava até a morte, mas morria de ciúmes. Na verdade, tinha encontrado a Raíssa lá próximo à agência, ela disse que a mãe dela trabalhava por lá, daí a convidei para uma festa de fim de ano da agência onde soube que ela deu pra geral. A partir desse evento, passamos a nos falar. E alimentar ainda mais o ciúme sem razão de Daniela. A Raíssa é a típica eterna adolescente. Gosto de mulheres maduras, exceto Daniela. Nunca iria rolar, sabíamos bem. Teve um dia que peguei o elevador com Raíssa e, Daniela, meio bêbada, repetia rapida e incessantemente "bocadeboqueteira, bocadeboqueteira". Raíssa virou-se, não sei se ficou chocada com o linguajar e o teor de álcool de Daniela ou com minha cara cínica de "não faço idéia do que esteja acontecendo!". Nunca mais falou comigo. Que pena. Odeio gente que leva tudo pro lado pessoal. Exceto eu.


Contudo, o mais importanté é que o amor é a maior furada do mundo (depois da família, claro). O mundo seria bem melhor se as pessoas não se apaixonassem, antes, ficassem amigas para sempre sem ultrapassar a linha tênue que desestabiliza a auto-suficiência. Sei que em todas as relações que pensei ter amado, ficou algo não resolvido, não solucionado e fingidamente esquecido. Algo que permanecerá sem resolução pra sempre devido a intimidade que se perde com o tempo. A furada maior é estar preso a um momento em que é tarde demais pra qualquer ponto final; é estar deixando lacunas no que se entende por liberdade.


Estar deixando, vamos estar deixando. Inseri um gerundismo telemarketiano numa redação publicitária do Hans, meu rivalzinho de trabalho. Aquele mesmo que matei com as dinamites. Sentei e fiquei esperando a apresentação dele fracassar. Não deu certo. Ele, sem parecer desconcertado, dizia que era a linguagem do século XXI e que estava pautado em teorias lingüísticas para tal. Me pergunto até hoje se ele era desses intelectualóides que tinham mania de relativizar tudo ou se era tudo fruto de má formação na Estácio de Sá.


Daniela some e aparece, reaparece e resome. Eu só mordo e assopro porque sei que não são só meus amores que estão repletos de coisas mal-resolvidas. Odeio ambigüidades, exceto a minha. Mas sou assim porque tenho certeza de que ela vai sempre me procurar em outros beijos e abraços, assim como já a encontrei desta forma. A diferença é que ela sempre passa pra mim, mas eu sempre fico pra ela. Ela nunca soube lidar com rejeições. Eu me acostumei.


E volta a cadela arrependida. Sente saudades do que houve entre nós. Pensa em tardar a comparecer no meu aniversário pra medir o quanto ainda estou apaixonado; pensa em se casar com outro homem pra medir o quanto ela vai pensar em mim. O que ficou mal-resolvido, mal-resolvido sempre estará. Não adianta. Ela sempre será minha. E viveremos sempre nesse nosso jogo de esconder a nossa falta de aceitação por gostar tanto um do outro. Mas o tempo passou e daqui a pouco eu volto pra casa cabisbaixo, triste...


Explosivos devidamente colocados no carro do mauricinho. Expediente terminando. Nem revejo nenhum banner pra distribuir pros pontos de venda. Volto pra minha casa ver seriados adolescentes e engordar.


No caminho de casa observo pessoas. Alegres, tristes, feias, bonitas. Sempre penso em Adriana Calcanhoto nessas horas. Sei que é sinal de depressão. Sempre penso em programar meu celular pra tocar música internacional. Penso em ter uma depressão mais exagerada , mas não me permito abrir a porta dos meus porões. Hesito perante a expectativa do toque sem a minha programação. Deixo a sorte escolher a música e me desejo "Boa Sorte" sempre.


As pessoas me observam também, sei que sou invisível e à primeira vista, bem rápida, o máximo que devem pensar é "bonitinho, aquele rapaz alto". Mas me acho sem-sal. Para gostarem de mim, preciso de um olhar mais profundo. Preciso de alguém que me aceite e me abrace e me compreenda e me sorria. Como Daniela nunca fez.


Chego em casa e vejo malas alojadas no canto da sala. Casa limpa e arejada, cheiro de comida não-congelada. Minha mãe resolvera se hospedar. Mal sabíamos que Daniela tinha intenções românticas de dividir o apartamento sem ter nenhuma despesa por isso. Matriarca e Amante, mesmas intenções.


Eu também mal imaginava que Daniela iria ficar puta porque minha mãe estava jantando comigo, em silêncio. Nunca se sabe o diálogo que poderia haver entre mãe e filho tão distantes, e ela não fez nenhum esforço pra me salvar do meu constrangimento. Horas depois, a movimentação de viaturas de polícia e bombeiros me daria a secreta certeza de que o meu plano tssassino tinha dado certo. E, de tão péla-saco que ele era, deve ter levado mais gente consigo em sua BMW. Graças a Deus que lembrei de limpar as impressões digitais.


A educação súbita de Daniela fez com que minha mãe subitamente me deixasse me paz. Mas Daniela decidira ir embora novamente deixando mais uma vez o relacionamento em aberto. Saiu com rumo certo pra ela, incerto pra mim.


Na verdade, achava que investigadores da polícia junto com os CSI enxeridos iriam bater à minha porta antes disso, para questionar as razões das pesquisas sobre pólvora e explosivos em meu computador. O mais importante é saber que há sempre alguém vigiando você mesmo que você não veja. Seja a secretária da agência, seja pela página do orkut, seja pelos vizinhos vingativos, etcétera. Por isso, não se esqueça de apagar o histórico do seu computador antes de voltar para a casa. Assim, poderás dormir com a consciência tranqüila.


Durmo com a consciência tranquila sempre que penso em Daniela. Nunca entendi o nosso relacionamento por completo, mas entendi que só me sentia completo com as coisas mal-resolvidas, sem completude, sem ponto final, apenas virgulas, travessões e infinitas reticências. Pra sempre.


Quando cheguei aqui no hospital da polícia, encontrei Dona Carmem, a secretária da agência. Soube que ela foi encaminhada para um hospício a causa de seu surto e descontrole emocional. Acusava a todos da agência pela morte do namorado de sua filha, meu colega de trabalho, o Hans. Ela tinha sérias acusações principalmente contra mim. Nem imagino o porquê. Afinal, consegui provar que as pesquisas sobre explosivos do meu computador faziam parte da campanha que estava promovendo como freelancer pra uma empresa famosa. Quis trabalhar o conceito de explosão como algo novo e que causa impacto no mercado e assim, poder desenvolver minhas estratégias de criação e etc. A galera da delegacia me achou muito inteligente, ainda mais quando disse que estavam gravados no computador porque pretendia incluir as imagens no meu portfólio profissional. Publicitário tem dessas coisas, lábia.


Além do mais, o principal suspeito era o Seu Moacyr que estava namorando a filha dela, a Raíssa, minha vizinha e amiga de orkut. Inclusive, essa menina estava saindo com o morto, sabia? Dizem as más línguas que o jeito machão do Seu Moacyr não admitiria uma coisa dessas. Crime passional, sabe como são essas coisas.


Como a Dona Carmem está com sua sanidade debilitada, eu tive que vir aqui reconhecer o corpo da moça que estava no carro que explodiu, já que sou vizinho, solícito e seu Moacyr está preso. O mais importante é sempre ser honesto e espalhar a verdade por toda a parte, ne?

Bem, já estou muito ansioso e estou esperado aqui nesse lobby de hospital por mais de 2 horas, amigo. Aquele lá fazendo sinal não é o legista? Bem, acho que devo acompanhaá-lo. Deseje-me boa sorte, amigo.


- É naquela sala ali. A segunda maca, o corpo coberto com o saco preto.

- Obrigado, doutor. Vou verificar.

Um pouco aflito pelo cadáver, mas ansioso para voltar à vida sem crimes, sem seu Moacyr e à eterna espera pelos infindos retornos de Daniela, suspendi o saco preto.

Emudeci. Hesitei. Agora sim, tive certeza de que aquela cena era uma cena de despedida. Boa Sorte, Daniela.

Da noite pro dia
Nem sabia que aquela seria a última vez que eu a via
Da noite pro dia
Ela sorria e me garantia estar na maior alegria
Da noite pro dia
A ironia é serventia por conta da casa vazia
Da noite pro dia
Da noite pro dia

da impossibilidade de declarar o amor

Post Continuação das Declarações de Amor I e II

Não te concedo o prazer de se aventurar pelos meus exercícios de dizer e expressar a minh'alma. Nosso diálogo inter-afetivo, porém unilateral, não quer te permitir a descoberta de minhas ambigüidades.
E nelas, as ambigüidades, permaneço como se meu chão fosse movediço porque meu coração é essencialmente grande parte do que sou.
A compreensão do eu que é exigida por ti não se reduz a acordos. E meu amor depende do quanto, em ambigüidades, você quer se arriscar.

sexta-feira, setembro 04, 2009

Mrs. Dalloway,


"Always giving parties to cover the silence"


Exaustivo. Mais que fatídico. Exaustivo todo esforço sobrehumano depositado em fantasias vãs e desonestas. Antes mesmo de pensar em qualificar sua frustração, a sua impotência perante o jogo que acabara de perder, pensou se sobrehumano e desonsto estariam escritos de maneira correta. Seu objetivo antes de tudo era impressionar linguistas distantes, esse pessoal que se apega mais à linguagem do que às pessoas.


Tola. Linguistas não dariam a ela o que ela mais deseja: carinho. Porque amor é concreto e ela é abstrata ao extremo. Não consegue pôr os pés no chão para experimentar sentimentos reais.


De volta aos seus pensamentos originais, à sua estratégia falida de jogo, ela não consegue dormir pensando no que teria sido diferente, em como intrepretaria o xeque-mate, no que teria surtido melhor efeito, em quem ligaria na noite seguinte e lhe diria palavras de amor, em quem a convidaria para sair, com quem poderia realmente contar, por quanto tempo atribuiria amor recíproco a quem ela venerava, por quanto tempo fingiria entender que era amor uma noite de sexo eventual e sem sentido.


Sua obsessão pelo futuro do pretérito é reflexo de seu tempo irreal e herança de sua paixão por acadêmicos com problemas emocionais.


Sozinha em seu quarto escuro, a espera de um velho ombro amigo, só ouvia silêncios e lágrimas.


Mais uma vez, ela tentava se concentrar em busca de uma auto-análise que pudesse explicar suas máscaras, seu complexo de inferioridade ou até mesmo o término de seu dom de manipular, seu trunfo. Ledo engano...

Mas sua angústia solitária e vazia paradoxalmente ocupavam e lotavam sua mente, seu coração, seu corpo.


Criava então uma fazenda com hectares e hectares de distância dos risos, dos jardins, do calor ameno, do sol, das borboletas...


Abriu um livro na tentativa de alimentar-se com conhecimento, absorver razões, impressionar linguistas, impressionar estranhos, ocupar seu tempo, esbajar inteligência, esbanjar letras desprovidas de sentido, esbanjar-se de credibilidade. Sem ao menos notar que quem admirava sua destreza e dedicação, não precisava de provas, de evidências ou de baladas.


Ao estabelecer sua moeda de troca, para fins públicos, queria sempre estar certa. Sem se dar conta que estar certo não é mais importante que estar feliz.


Quanto a sua vida particular repleta de fantasias e futuros do pretérito, se vendia por quase nada ou então por promessas igualmente fantasiosas ou preteritofuturistas. Não podia ser diferente. Sua pseudo-auto-suficiência se encarregava de atribuir sentido a todos os seus interlocutores. Quando se está certo, não é necessário ouvir ninguém. E quando se está delirando?


O tempo e a descrição do narrador não foram suficientes para dar a ela o tempo necessário de pôr os pés descalços na terra e começar a plantar no solo ainda fértil seus bons frutos do perdão, mas assim como deve ser exaustivo narrar infinitamente um jogo psicológico no mundo das idéias, deve também ser exaustivo perder seu próprio jogo no mundo do real.


...


Post-Scriptum do narrador: Nunca serei Virginia Woolf, pois o fluxo de consciência alheio não tem sustentado às demandas pela atribuição de sentido ao vazio da existência...

Amor, quando chove fica mais triste esperar por alguém que não vai chegar.

terça-feira, setembro 01, 2009

Sol de Primavera

Quando entrar setembro
E a boa nova andar nos campos
Quero ver brotar o perdão
Onde a gente plantou
Juntos outra vez...

Já sonhamos juntos
Semeando as canções no vento
Quero ver crescer nossa voz
No que falta sonhar...

Já choramos muito
Muitos se perderam no caminho
Mesmo assim não custa inventar
Uma nova canção
Que venha nos trazer...

Sol de primavera
Abre as janelas do meu peito
A lição sabemos de có
Só nos resta aprender
Aprender...

Beto Guedes

http://www.youtube.com/watch?v=w_FjIXRtC8A

quinta-feira, outubro 23, 2008

Cardápio

I
Eu pediria algo apimentado com toques de cor e um sabor cítrico ou agridoce. Algo a ser degustado com volúpia e ao mesmo tempo com calma. Talvez um misto de coração, peito e lombo. Um belo pescoço ao molho de chanel e lábios carnudos e com um toque de frutas. Pra beber, pediria a doce seiva do amor, que a seria destilaria no momento certo.

II
Eu prefiro conteúdo. Coisa bem forte como comida brasileira ou italiana. Sempre com fartura e gosto! Um recheio bem suculento, com emoção e prazer! Cobertura no ponto certo, para ser deliciada com a lingua bem devagar!

PS: Me desculpem aos aficcionados pela cozinha minimalista francesa, sem dúvida, boa na apresentação, entretanto sempre há a sensação de quero mais.

III
Peço prato fundo e Cheio. Se sexo fosse comida, certamente saberia meu maior pecado: A Gula.



Post advindo de conversa no orkut.

Esquadros

Bem, tem tempo que não atualizo essa budega aqui, ne?
Então como tenho estado muito musical, vou postar músicas, que de uma forma ou de outra deixam escapar o que o poeta tenta fingir ou esconder.




Esquadros
Adriana Calcanhoto

Eu ando pelo mundo
Prestando atenção em cores
Que eu não sei o nome
Cores de Almodóvar
Cores de Frida Kahlo
Cores!

Passeio pelo escuro
Eu presto muita atenção no que meu irmão ouve
E como uma segunda pele
Um calo, uma casca, uma cápsula protetora

Ai, Eu quero chegar antes
Pra sinalizar o estar de cada coisa
Filtrar seus graus...

Eu ando pelo mundo
Divertindo gente, chorando ao telefone
E vendo doer a fome nos meninos que têm fome...

Pela janela do quarto, pela janela do carro
Pela tela, pela janela
Quem é ela? Quem é ela?
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle...

Eu ando pelo mundo
E os automóveis correm para quê?
As crianças correm para onde?
Transito entre dois lados de um lado
Eu gosto de opostos, exponho o meu modo
Me mostro
Eu canto para quem?

Eu ando pelo mundo
E meus amigos, cadê?
Minha alegria, meu cansaço
Meu amor cadê você?
Eu acordei, não tem ninguém ao lado...

Metade

"Eu perco o chão. Eu não acho as palavras
Eu ando tão triste, eu ando pela sala.
Eu vejo a hora, eu chego no fim
Eu deixo a porta
Aberta.
Eu não moro mais em mim.

Eu perco as chaves de casa, eu perco o freio.
Estou em milhares de carros, eu estou ao meio
Onde será que você está agora?"

Seja bem-vindo à fossa, disse Adriana Calcanhoto.

Fabíola decidiu associar-se ao clube. A partir de agora, seria a mais nova integrante do esgoto sentimental. Jamais estivera disposta a utilizar seu sentido olfativo para experenciar o coração. O que há de sofrimento por lá~conhecia muito bem, e essa fossa, ela não queria cheirar.

Fabíola pôs os comprimidos na bolsa, entrou no carro e dirigiu. Dirigiu sua vida pro abismo. Trocaria o buraco da sisterna pelo buraco sem fim. Transtornada, no primeiro sinal vermelho, quando era obrigada a parar, olhava para os comprimidos e chorava. Rios de lágrima. Chorava de infelicidade sim, chorava para que o choro fosse tão intenso que, por segundos entupisse o nariz e assim não sentiria o cheiro daquela alma jogada na sarjeta. Chorava de raiva também porque o sinal vermelho a obrigava a parar. E ela queria dirigir. dirigir seu carro, dirigir sua vida.

Fabíola acabara de ultrapassar o quarto sinal amarelo. Afinal, sinal amarelo é psicológico. Ninguém nunca sabe ao certo o que fazer, não fubnciona nem como um estímulo, logo não tem uma resposta empiricamente behaviorista pras atitudes que o ser humano possa tomar.

E Fabíola chorava para não falar, para não dizer. Pelo visto não era só seu olfato que estava comprometido.

Não é infelicidade de amor, relacionamento. Também não sabia o que era. Só sabia que estava triste, amargurada. Era saudade do que não viveu. Pior do que saudade do que poderia ter vivido. E Fabíola não sabia como sair, não sabia como fugir, não tinha pra onde ir.

Fabíola andava tão triste, e na longa estrada, entre milhares de carros, se deu conta de que tinha chegado no fim.

Deixou a bolsa aberta e engoliu os comprimidos. Perdeu o freio.

domingo, julho 06, 2008

Declaração de Amor II


Hoje você começa a galgar os degraus do Paraíso enquanto eu permaneço aqui entre as árvores sombrias e monótonas condicionado a nunca mais sonhar. Minha imaginação fecha-se para o real e minh'alma cria outros universos. Não cria, mas recira. Recria você no meu universo, meu infinito particular.

E ainda assim ouço música em você, compro livros, bebida e comida em você. E vôo sob suas asas, atrás dos seus olhos, dentro da sua carne. Lembro coisas inúteis, esqueço dos sonhos despertos.

Amargo e Doce, Triste e Feliz, Bom e Ruim. Fecho os olhos enquanto meus braços estão abertos. Ando devagar enquanto o coração tem pressa. São déja vu inéditos e clichês originais. E vivo na antítese de tudo, vivendo de um extremo ao outro entre o amor e a dor.

E quando passar por aquelas ruas, lembre-se de mim, se impossível. Porque eu só sei ser assim.

Assim que chegar...

Dá um toque? Assim que chegar, dá um toque?
Só um toque pra dizer que chegou, pra dizer que vai chegar, pra dizer que vai ficar. Pra dizer que foi rapidinho, que pensou em mim no caminho. Liga depois da visitinha na casa da sua tia, da ida ao dentista. Liga só pra dar notícia, pra me contar do amanhã, pra me fazer ninar, pra me desacreditar do destino. Só um toque, tá? Quando vc chegar.

Só pra isso. Dá um toque, por favor. Assim que você chegar, ok?
Mas dá um toque de verdade, pra valer. Aquele que me fascina, um toque por toda a eternidade, que me ocupa tempo e espaço. Que me ocupa. Eu. Pra mim.

Dá um toque, vai, assim que você chegar.
Pode ser um toquinho rápido. Pode ser às seis da manhã, hora de amanhecer. Hora de um tempo virar outro. Hora da luz se acender. Hora de sempre mudar.

Dá um toque, assim que chegar, please.
Pra me contar mentiras, pra dizer que sentiu minha falta, que me deseja. Pra dizer que pensou em mim ou que nunca pensaria em nós.

Um toque, beleza?
Preu ouvir tua voz. Deixa eu escutar meu som virtual, deixa eu escutar teu som real, tua voz, tua rspiração. Só a respiração. Só ela já me satisfaz. Dá um toque pra mim. Dá um toque pra nós. Dá um toque pro nosso amanhã. Deixa uma razão pra gente se ver. Deixa uma razão pra gente dizer, enrolado em toalhas, na soleira da porta, cheios de ternura olhando para o jardim, que nós crescemos e nos amamos.

Dá um toque quando você chegar
Pra dizer que me ama, que não me ama mais.
Pra dizer. Só pra dizer.

sexta-feira, julho 04, 2008

Nem toda nudez será castigada


Então acordei com um gosto doce na boca, envolto num aroma suave que meus lençóis carregavam. Tive a sensação de que violara algum corpo recentemente e que em troca, tal corpo violara minha alma. Senti o rastro da volúpia e a armadilha do amor. Percebi na temperatura que era uma atmosfera de paixão mas minha nudez tinha um significado que eu desconhecia. Tinha uma frieza reconfortante que, contraditoriamente, contrastava com o ardor do silêncio do meu quarto e com as palavras transpostas em sentimento que não conseguia arrancar de minhas roupas espalhadas pelo carpete marrom.

Meus sonhos me enganavam pois eram sim extensão da minha realidade. Nesse simulacro, levantei-me de supetão tentando decifrar os ingredientes que compunham o ar do meu quarto, do meu esconderijo. Certamente cheirava a sexo, mas a essência ainda era desconhecida. Vesti a calça e procurei pela camisa em toda parte. Foi quando a vi cobrindo o corpo de uma mulher. Vi que minha camisa não era mais posse minha. Nunca mais seria. Pertencia a ela e não mais sentira como se fosse minha.

Fiquei à espreita observando aquela que tirara a camisa de mim, aquela cujo corpo se apossou do único tecido capaz de cobrir a minha nudez despretensiosa. Percebi que a camisa fazia parte de mim, mas que a minha parte agora pertencia a ela. Dona da minha nudez. Poderia agredí-la e pegar de volta minha camisa, mas me sentiria um sequestrador e , além do mais, isso não faria com que a camisa voltassee pra mim. Voltaria sim, mas com o cheiro dela, com o aroma daquele corpo, com vestígios daquela alma. Percebi então que deveria encarar um amor pra-vida-inteira. Não queria mais um amor de-vez-em-quando. E um amor decidido que invade meu esconderijo e retira de mim tudo o que há de melhor e tudo que jamais emprestaria a alguém.

A cumplicidade dos lençóis e a condição da camisa me levaram a um nível inatingível de sentimento. Acho que foi o tão banalizado amor que me prendeu num sorriso curto e simples ao me deparar com ela na cozinha e ouvir um cumprimento matinal qualquer. Descobri então o que descobria meu ser. Descobri nela o que a camisa cobria em mim. A minha nudez precisava ser compartilhada e minha relação metonímica com o pano guardador de segredos despiu meus sentimentos e vestiu minha esperança.

Ao ver, sobre a mesa, o meu sagrado sucrilhos com nescau preparado, tive o meu momento epifânico. Foi quando entendi que aquilo que estava vivendo duraria para sempre.

Declaração de amor


E mais uma vez minhas palavras são tuas. Há tanto de você em mim que não posso esconder. Não posso tirar - é tanto que me deixaria vazio.


Eu te vejo por entre as minhas letras, nas palavras que nunca mais serão escritas de forma errada, nas minhas perfeitas concordâncias verbais. Escuto-te no meu bom gosto musical. Sou-te na minha sensibilidade, no meu gosto pelo lindo e belo...


E tem livros teus na minha prateleira e calcinhas tuas na minha gaveta. Tem tua sobremesa preferida por toda a geladeira. Tenho um amor todo teu no peito. O problema é que já não existimos mais.”


Sexta-Feira Santa

Sexta-feira Santa. Feriado. Acabo de acordar. Mais um dia normal como todos os feriados, me mostrando que a vida é tão inútil quanto os dias úteis. Ignoro toda e qualquer manifestação religiosa que possa surgir em minha frente. Estou lendo Nietzsche essa semana. Ou era Schopenhauer? Bem, estou sonolento. Fato. Acho que estou com torcicolo. Tenho a impressão que tive um sonho. Não sei bem se era sonho ou pesadelo. Não dou muita importância, afinal, ainda estou sonolento. Penso coisas improváveis como “todos carecem ocultar seus segredos mais perversos”. Não dou atenção. Ainda estou sonolento. Além do mais, não tenho coragem de abrir meus porões e acender a luz pra ver o que vou encontrar.

Minha geladeira está vazia. Preciso de carne. Me sinto tão carnívoro. Vomito sobre tudo o que é verde. Será que vende carne na sexta-feira santa? Se não tiver carne, compro peixe. Não custa nada ser marítimo um dia apenas. Em nome de Cristo. Pego a primeira calça jeans escura que vejo na frente e me dou conta que só tenho camisas pretas. Pego a mais nova, ainda com a etiqueta. O incômodo que o roçar do papel na minha nuca causa não é nada comparado ao flagelo de Cristo pela Via Dolorosa. Acho que gosto de me punir de alguma forma. E nunca uso sapatos. É preciso tirar os sapatos da mente para me tornar um ser humano mais amplo.

Não consigo rir de minhas pequenas ironias. Estou morto por dentro, morto num feriado. Mas caminho descalço por caminhos tortuosos e sujos. Não encontro açougues abertos. A minha carnificina interna jamais será alimentada. Decido ir ao Porto que me relembra a atmosfera simplista a fim de cumprir minha promessa marítima. Não vou por causa dos peixes, vou por causa do cheiro e do vento que viola meu corpo e o meu corte asa-delta. Paro em frente a Baía de Guanabara. Reflexo da sujeira do meu interior. As águas sujas são puro espelho. Sou guiado pelos pequenos paralelepípedos que me levam à comida embrulhada em jornais que expõem tragédias e o clima nacional. Pago e recebo o troco. A moça atrás do balcão sorri. Meio amiga, meio inimiga. Meio íntima, meio desconhecida. Deve ser a Sexta-feira.

Espero os peixes que são dilacerados na minha frente. Não esboço reações. Vejo a morte perto de mim, mas sou incapaz de sentir algo. Represento num palco o que me convém. Quero ver até onde meu personagem consegue testemunhar. Ao me deparar com a morte e não reagir, percebo até que ponto vai minha normalidade.

Os segundos se passam e o sangue escorre. Olhos esbugalhados que não são meus. Sinto uma pontada de volúpia perante o ardor daquele momento. Que tipo de ser humano sou eu que me satisfaço com requintes de crueldade? Presencio a morte e me calo. Não impeço o escorrer do sangue. Ultimamente desobedeço os meus instintos: não me choco perante as circunstâncias e a vida segue assim.

A assassina me entrega o embrulho. Por mais simpático, amigável e íntimo que seu sorriso possa parecer, não me esqueço da sujeira vermelha de suas mãos. E não adiantaria lavar nem esfregar com bucha. A água é incapaz de celebrar a morte.

Tenho sede por peixes. Compro dez quilos e os quero tão ensangüentados quanto os outros. Não me conformo com a sina deles e nem sou eu quem lhes atribuo o destino. É a sexta-feira. Santa. Decido que terão um destino menos trágico. E os quero nojentos como são. Por um momento a moça não traz mais o sorriso em seu semblante. Olho, de relance para seus dedos, instrumentos de aniquilação e percebo a aliança por entre os dedos macios. Teria família? Marido? Filhos? Não importa. Nada trará os peixes de volta.

Isso me faz sofrer. Mas não hesito em exibir a morbidez em meus braços, o embrulho da tragédia e o jornal anunciando tragédia e meteorologia em meus braços. Suporto a dor e o odor. Volto à Baía de Guanabara. Todos me olham, mas não me importo. Nenhum deles têm os olhos esbugalhados. A sexta-feira da paixão está prestes a se findar no seu ritual religioso e eu estou prestes a cumprir minha promessa. Corro até as pedras, frente ao mar. Minhas mãos são trêmulas, mas meu desejo é firme. Sempre fui inconstante, sempre fui carnívoro. Hoje é preciso jejuar para que me sinta menos pecador. Abro o embrulho e devolvo a vida morta ao mar. Jogo cada pedaço, um por um, o mais longe que puder. Jogo-os com toda a minha força. E nunca me importo com os que observam. Eles não sabem que já fui carnívoro. E a vida segue assim.

Em Círculos


Precisei arrumar as malas e comprar passagem pra China pra perceber que não precisava ir tão longe para ver a grande muralha. Precisei arrumar as malas e ir pro outro lado do mundo pra perceber que não precisava arrumar as malas pra chegar no outro lado do mundo. Foi preciso um quarto de hotel, uma caminhada a sós e uma briga com um bêbado pra perceber o que é a solidão. Pra sentir em meu corpo a neve em pleno verão.


Vaguei por cidades amigas e lindas. Costurei na vestimenta de uma gueixa, os bordados das ruas sem saída e alimentei nos raios do sol nascente, as planicies e planaltos árduos com feijão e solidão.


Falar de amor? Escrever sobre a saudade? Propor devaneios nostálgicos? Recitar poemas aos prantos? Beber um copo d'água numa tacada só e chorar? Fechar as mãos sem rancor? Não foi tão efervescente assim. Ácido Acetilsalicílico pro vírus do sentimento. E o remédio? São os sintagmas preposicionados, a escrita fragmentada, as orações subordinadas. É o que permite ler e é o que me permite ser lido mesmo que me torne cego.


Precisei querer ser alguém que não era e não era pra ser. Precisei pedir esmola pra mendigo, beijar répteis à contragosto, mergulhar num lago gelado, gritar em filmes mudos, acertar uma flecha no peito da amada, sentir o doce antes do amargo. Precisei ser alguém que remava contra a maré, me ver de longe e pequeno, um idiota, estúpido; ser alguém que perseverava pra perceber que não percebia nada, que todo sentido é sentido e pressentido, nunca ressentido ou consentido e, finalmente, que nenhum vulcão seria capaz de aquecer a neve que predominava em minha alma evasiva e rigorosa.

12 de Janeiro


O sol apenas queimava e ao invés de fazer brotar gotas de suor nos homens expostos, secava com rapidez toda e qualquer manifestação líquida do corpo humano. Não havia poças no chão, o sangue engrossava e o suor grudava, incrivelmente sólido, nas camisetas rasgadas e ferventes. Os olhos ardiam e mesmo assim nenhuma lágrima ousava cair. A paisagem estagnada sendo movimentada apenas pela ilusão do vapor que emanava do asfalto. A temperatura ambiente era fruto do psicológico humano e da malícia do imponente e impiedoso sol. Gargantas secas por toda eterniade numa retida cumplicidade entre o silêncio e o sofrimento. Com a forte luminosidade, as folhas caídas queimavam e as ruas eram verdadeiras Vias Dolorosas. Janeiro não tinha razão de existir, no entanto, aquele 12 de Janeiro parecia inadequado à morte.

quinta-feira, julho 03, 2008

A Morte do Rei (manual)

Não se deve odiar o rei porque o ódio é um sentimento reciprocamente fiel além de nos guiar a um lugar estreito onde nos tornamos presas fáceis e descontroladas. Deve-se matar com frieza e não prazer.

É necessário temer o Rei, não por medo, mas por respeito. A morte deve ser prudente. Tema-o na proporção certa de sua força.

Deve-se amar o Rei, pois o amor revela os pontos fracos. Ame o Rei na proporção certa de suas fraquezas.

A morte não pode ser misericordiosa, tampouco excessivamente cruel. O Rei deve morrer sem se tornar um mártir.

A morte deve ser calculada e planejada para não gerar desconfiança. Um rei só morre por fatalidade. Rei não é herói.

O rei deve ser morto pelas costas. Não por segurança ou covardia, mas pela plenitude da morte, pois um homem que percebe, mesmo por um milésimo de segundo que vai morrer, não mais é um Rei.

E, o mais importante: o objetivo não é a morte do Rei, mas o declínio do Reino.




"É, meu filho, esse discurso nos vale um livro inteiro de Maquiavel e um simples conto de Machado de Assis"

quarta-feira, julho 02, 2008

Cedo Demais


Maria dormia. Tinha um sonho agradável em que era uma super-heroína e salvava o mundo de algum vilão de máscara negra e capa esvoaçante e bem na hora do beijo no mocinho, antes de subir os créditos finais, o despertador tocou. Maria levantou e pôs os chinelos. Rapidamente foi ao banheiro, pôs a pasta na escova e 5 segundos depois já estava penteando seus cabelos esvoaçantes e escolhendo a dedo 1 dos 15 frascos de perfume sobre a penteadeira. Escolheu o da esquerda. Sua mãe gritou pra avisá-la de que estava atrasada. Ela resmungou, queria dormir mais um pouquinho, mas precisava ir pro estúdio de Cinema onde trabalhava há 1 hora e meia de sua casa. Vestiu a blusa e o jeans correndo. Desceu as escadas, balbuciou um "bom dia" para algum fantasma, pegou uma rosquinha e um copinho de iogurte, e ao mesmo tempo em que calçava o all star verde claro, andava em direção à porta da rua. Bateu a porta e acordou.

Que barulho chato desse despertador. Dirigiu-se ao banheiro e a pasta já estava na escova. Depois de 3 segundos escolheu o perfume da esqueda e calçou o jeans e o all star verde. Deu bom dia para a mãe e ouviu um fantasma a convidar pra tomar café. Pegou uma rosquinha e um iogurte e correu em direção à porta ao mesmo tempo em que vestia a blusa. Bateu a porta e desceu as escadas.

Pegou um iogurte, não tinha mais rosquinha. Calçou o chinelo e levantou-se da cama. Não escovou os dentes. Cadê o perfume da esquerda? Bom dia mãe. Vem tomar café, querida! Vestiu o jeans desbotado e pôs a capa esvoaçante enquanto se dirigia à porta da rua. Bateu a porta e calçou o all star amarelo.

Prendeu o cabelo e escolheu a dedo os 3 perfumes na penteadeira. Um fantasma pusera pasta de dente em sua escova. Cadê a mamãe? Tá comendo rosquinha. Vestiu o jeans e pôs a máscara negra. Pegou um iogurte enquanto se dirigia à porta da rua. Bateu a porta, mas não estava atrasada. Um fantasma calçou o chinelo e deu bom dia à Maria. Ela respondeu. Pegou um iogurte e uma rosquinha e depois foi escovar os dentes. O despertador tocou. Calçou o chinelo. Pegou um perfume e foi em direção ao estúdio de Cinema. Desceu as escadas e pegou a blusa da esquerda. Pôs pasta de dente no all star verde-musgo.

Maria estava sonhando que era uma produtora de Cinema e que trabalhava a 1:30 de sua casa, mas sabia que era uma heroína. Tinha uma máscara verde-claro e uns cabelos esvoaçantes. Odiava perfume e só bebia iogurte. Brigou com um fantasma e sonhou que tinha uma família, uma mãe. Calçou os jeans e foi lutar contra o crime.

O despertador tocou, a mãe de Maria foi avisá-la de que estava atrasada. Bateu a porta ao mesmo tempo em que escovava os dentes. Pôs os chinelos e o jeans da esquerda. Voltou a sonhar. Está prestes a acordar.

By Fast-Food

[ No Fasano]

- Adilson Junior, que surpresa! Jantando no Fasano, o restaurante mais caro do Rio de Janeiro!
- Só um lanchinho, Amaury
- E, como sempre, muito bem acompanhado. Sua esposa já voltou da Holanda, pelo visto, ne?
- Pelo VISTO, sim né?
- E, qual foi o menu de hoje, hein?
- Foi Sexo selvagem e pizza. Vai jantar também?
- Não, acho que não. hehe
- Por quê? Não gosta de Pizza?

[Kee p it coming love, keep it coming love. Don't stop it now, don't stop it no...]


Próxima entrevista - no prêmio Multishow!!

El Sarcasmo

Tenho muito dó de quem me olha e acha que sabe o que vê.
Assim como morro de pena de quem me lê e pensa que entende o que eu quis dizer.







Pos Scriptum:
Sou oásis sem montes de terra pelos lados,
Assim como sou ilha e pra quem vê a água que me cerca, não imagina a profundidade do oceano.

terça-feira, julho 01, 2008

Caminhando contra o vento...

Caminhava.

E não sabia muito bem pra que direção.

à sua frente vislumbrou:

A - U pêndulo verde-musgo envolto por um breu e uma corda ao longe indicando que um poço já houvera sido construído por ali.

B - Um menino que prendia os enigmas do mundo numa gaiola dourada

C - Um pincel branco que cobria o passado e pintava pautas voadoras onde era possível escrever o futuro

D - Um sorriso preso num quadro impressionista que pertencia a um rosto hipnótico de um homem sedutor.

E - A vergonha e o arrependimento de mãos dadas portando vestimentas gregas

F - Uma língua escondida num envelope bordado de poesia

G - Cinzas de um soldado em volta de uma corneta que não tocava as notas da paz

H - Um Rei Momo mal-amado

I - Almofadas de pena de ganso e uma placa escrito "Consciência" na cabeceira da cama

J - Um espelho de moldura barroca

Eram caminhos proporcionais ao alfabeto. Escolhera todos.

sábado, maio 03, 2008

Aaaahhh tá

- O que vc fez durante o eclipse, ontem??
- Nada demais. Fiquei pensando se levava adiante um amor que começara perigosamente na semana passada.
- Aaaah tá.

[...]
- Tchau vó!
- Onde você vai, netinha querida?
- Sair com o Maurício
- Quem é Maurício?
- Ah, um cara que me comeu na praia. Beijosetchauvó
-!?

[...]
- Tento ligar pro Renatinho, mas não consigo
- Deve ser porque ele morreu semana passada, ne?
- Aaaaaah ééh...tinha me esquecido, putz!

[...]
- Que tal se expor ao sol e às flores na primavera?
- Estamos no Inverno, querida!
- Aaaah tá

[...]
- O que você está fazendo?
- Estou esperando o amor recíproco
- Aaaah tá

Axé Music

Em plena Quarta-feira de cinzas, findo o Carnaval para aqueles que compreendem a utilidade do superego proposto por Freud e não se rendem às mazelas carnais e decadentistas de uma época animadinha onde o ser humano esquece suas obrigações para correr desesperadamente semi-nu atrás de ônibus gigantescos em pleno sol de 40° seja em qualquer lugar do país, discutia com pessoas que jamais participariam da orgia mencionada acima - não por falta de vontade, mas por puro recalque - sobre o estrondoso sucesso do Axé Music de Salvador que repercutia em todo o país.

Chegamos então, à personagem-protótipo dessa escola musical que tem colhido bons frutos nessa área, principalmente nessa época. Eis que surge a figura da Poderosa Ivete (voz e pernas) e sua Festa, seu carro não mais velho, seu amor canibal e sua pequena astronave dando um ar inaproriadamente psicodélico ao contexto ao qual ela pertence.

O comentário na rodinha dos pseudo-intelectuais, dos especialistas em cultura inútil e dos recalcados de Carnaval era o extermínio do Axé Music da face da Terra ou o assassinato - com direito a bilhete emo-suicida (pleonasmo?) - da querida diva brasileira, cujas pernas, by the way, valem a ida a Salvador. Dentre comentários do tipo: "Morte ao Axé" "Anarquia soteropolitana" e outras ofensas impróprias à pessoa pública da querida ex-peguete do Huck e da Xuxa (oops...), algum fã, nitidamente esmagado e pressionado a falar mal de seu ídolo, tentava de todas as formas amenizar a situação. "Ai, gente, ela nem é tão ruim assim, vai?" Sendo rebatido constantemente pelos líderes revolucionários que preferem apontar o joio a recolher o trigo.

Então, ainda contrariado, mas indisposto a continuar uma discussão. Afinal, gosto não se discute, ne?, o retraído fã diz: "O que ela faz é ruim, mas ela é boa no que faz". Alguns ficaram calados, concordando com os atributos vocais, artísticos e físicos (da cintura pra baixo, claro), mas não senti que aquele argumento realmente fosse válido para qualquer coisa.

Se partirmos do ponto de que a competência gera a crítica positiva, estaríamos então elogiando e admirando o assassino competente? o corrupto competente? o pedófilo competente? Se nossos argumentos se direcionam para a maneira como as pessoas agem e ignoram a ação que está sendo feita, acho difícil chegar-se a alguma conclusão que defina realmente um ponto de vista plausível. Não sou politicamente correto, mas também não adoto os ideias dos incorretos e dos serial killers. O ser humano é ambíguo mesmo. Mas se é pra fazer o bem, que façamos bem. E se vier o mal, mesmo que de forma bem feita, não esqueçamos do mal. O mal pode ser mascarado, claro. Mas molduras boas não salvam quadros ruins e máscaras de porcelana quebram facilmente.

Quanto à Ivete, não emiti nenhuma opinião. Sabe como é, ne? Opinião é igual a bunda, cada um...

Linda

Era uma menina linda, de cabelos da cor do sol ondulados sobre seus seios. Menina de sorriso lindo e cristalino como as águas da nascente. Tinah a pele branca e levemente avermelhada ao sorrir e mover so músculos delicados de seu rosto. E, além disso, eu a amava. Amava tanto. Eu a amava a ponto de.

Não. não a amava a ponto de interromper meu discurso.

By Backstage



[ nos bastidores com Amaury Jr.]


- Olá Adilson Junior!! Tudo bem?
- Tranquilo.
- E a Dani, sua noiva? Como está?
- Bem.
- Cadê? Onde ela está?
- Tá em Amsterdã.
- É mesmo? Que elegante!! Fazendo o que?
- Ah... contando algumas mentiras e pegando algumas DSTs
- Ah...é o tipo de coisa que é a cara dela, ne?
- Não força, Amaury...
- É sério. Tão subversiva, tão liberal...
- Pois é...Agora me dá licença porque eu preciso gravar meu talk show, ok?...
- Esse é o Adilson Junior...sempre simpático e pensando em trabalho!!


Keep it coming love...Keep it coming love...Don't stop it now, don't stop it no...


PS1 - Amaury Jr precisa de umas aulinhas de "como entender Sarcasmo"
PS2 - Ele falou mesmo a palavra "subversiva"??

Breve consideração sobre o amor

Sim. O amor acaba. E pode acabar em qualquer lugar: numa cama bem quentinha, num barzinho na esquina, no silêncio do teatro, na beira da praia, na UTI de um hospital. Acaba num parque cheio de lama, diferente do campo aberto e ar puro onde o sentimento começou a pulsar.
O homem termina o relacionamento e vai comprar um cigarro, vai andar sem rumo e esperar o próximo rabo de saia. A mulher vai chorar por 3 dias seguidos, tomar um pote de sorvete de creme e chorar novamente, já não mais pelo término do relacionamento, mas pela possibilidade de uns quilinhos a mais...

O mais importante, entretanto, não é a conseqüência do térmnino do amor, mas o modo pelo qual ele temrinou.

O homem é frouxo. Só usa vírgulas, jamais um ponto final. No máximo, sendo bem otimista, ponto-e-vírgula. Ou então, o homem cria situações para que a mulher diga:
"Basta! Chega! Assim não dá."
"Poxa, que pena. Tá bom."

A mulher é expressiva. Passa por todas as figuras de linguagem - da hipérbole à metonímia. Só uma fica de fora: a metáfora. Ah...metáforas!! Mulher se entrega, diz na lata, no sentido mais denotativo possível. e as expressões vão mais além: é vaso quebrado, garrafa de whisky jogada na parede, tentativa de agressão física, puxa o próprio cabelo. Nessas horas se descobre o quão paciente consegue ser o homem e o quão chorona consegue ser a mulher.

Amor de verdade não termina de forma civilizada. Tem que ter discussão, tem que haver luto. Não vale sair por aí assobiando, cantando uma musiquinha qualquer e chutando as pedrinhas e as chapinhas de cerveja que aparecem pela frente. Tem que cantar: "Acabou o amor! Isso aqui vai virar um inferno" Término de relacionamento sem baixaria é comprovação da inexistência do amor.

O amor exige uma viuvez
e condena o ex-casal ao exílio. Até que apareça alguma plebéia ou algum mancebo que faça a paixão bortar novamente...e até o dia em que os desentendimentos virão e a tranquilidade masculina e o aguaréu feminino se fizerem presentes novamente...e assim sucessivamente...

Carta-fora-do-envelope

Fora do envelope porque assim não corre o risco de ser entregue algum dia...

"Sim, você foi muito importante pra mim...pena que por causa das minhas dúvidas, minhas neuroses, minhas indecisões, minha fragilidade, meus medos, minha precariedade de relacionamento, minha aversão à intimidade, minha solidão e minhas reticências só fui descobrir tarde demais...
Mas ainda assim não consigo pensar no que poderia ter sido...acho que o que sentia nem era amor para ser incluído numa história de amor. E também se foi amor, já passou batido, deixou o orgulho ferido. Agora o sentimento só volta na memória pra me lembrar do quão importante tu fostes pra mim e esse mesmo sentimento, que, por falta de palavra melhor chamo de amor, serve apenas pra soprar a cicatriz e fazer arder a ferida...Vai me acompanhar pra sempre, mas não vai me fazer sofrer por muito tempo...
Bem, hoje em dia, mal nos falamos...mas acho que eu é que evito o contato maior e você deve entender o porquê."

Compartilhar é viver

Entra no ônibus e espera alguém puxar papo com você. De histórias de genros ingratos à plano de carreira você vai ouvir.Vai ao banco pagar conta, diga-se de passagem que ninguém atinge a felicidade plena em tal situação, mesmo assim, alguém sempre encontra oportunidade pra tecer comentários sobre a hipocrisia da sociedade capitalista.

E a vida vai seguindo assim. Em qualquer lugar que esteja, por menos rugas que se verificarem em sua testa e por mais amigável que seu rosto possa parecer, sempre haverá alguma alma solitária em busca incessante por atenção, por carinho, por desabafo, por preenceher um vazio desconfortante.

O ser humano é uma coisa incrível mesmo. E sedento por dividir. Dividir a alegria, o ódio infundado pela política, as inadequações no português, o sentimento de abandono e de solidão.
Salvo algumas raras exceções onde o papo é iniciado num lobby da biblioteca pública ou em algum lugar onde se espera que alguém como você apareça e possa compartilhar o que você também quer compartilhar.

Pessoas que não sejam como as da fila do caixa das Lojas Americanas ou as sentadas nos banquinhos pseudo-acolchoados dos bancões do centro da cidade, com um monte de papel na mão, pra pagar, claro. Pessoas que não se metam onde não foram chamadas, pessoas que não queiram compartilhar as desgraças de suas vidas vividas, bandidas, sofridas e fu**** apenas por compartilhar, pessoas que não queiram invadir a privacidade, que não subtraiam a solidão alheia com comentários previsíveis e sem conteúdo funcional.

A última coisa que vc espera é ser depósito de futilidades, de amenindades, de divagações sobre o clima. Não preciso que alguém me diga que o dia está quente porque consigo perceber isso sem precisar de segundo grau. O que você não quer é que te vejam como psicólogo ambulante, mas claro sem te dar o crédito pela possível ajuda, e, obviamente, sem os devidos honorários (psicólogo custa caro, bem). A última coisa que vc quer é que te façam perder a concentração e te roubem a solidão "sem verdadeiramente te oferecerem companhia"

Mas esse tipo de coisa você não quer falar pra tal tipo de pessoa, ainda mais em voz alta, ne? Porque se não você é o arrogante, o nojento, o mal-educado e dá-lhe adjetivos pejorativos. Por que compartilhar um ponto de vista com pessoas que compartilham tudo, menos o seu memso ponto de vista?

Bom, fico feliz em informá-lo de que seus problemas acabaram porque agora existem os fones de ouvido (que vêm acompanhado de mp3, mp4, mp987, dentre outros derivados) e que além de te tornarem intocável, ainda oferece música à seu gosto, que pode ser compartuilhada ou não.

Eis então os fones de ouvido: separando você da vida medíocre ao seu redor!!

sábado, março 15, 2008

Maracanã, 30°



Derrota.


Mas ninguém cala...
Dinamarca, 15 °

Alegria.

Correr




O sol nasceu. Momento exato para se começar o dia. Pelo menos para alguém que encobria sua madrugada tumultuada cheia de segredos e pecados na claridade ofuscada pela cortina vinho na janela de seu quarto pela manhã. A manhã sempre fora fictícia...era escura, negra como a noite...a escuridão que escolhera diferentemente daquela imposta pelo sistema solar.
Agora já não mais fugia da claridade, da luz. Precisava enfrentá-la e assim o faria. Tentaria fugir, mas enfrentaria. Esse paradoxo dava vida à sua conturbada vida. Vida esta que há poucos anos não mais aceitava.


Abriu a porta. Lagoa Rodrigo de Freitas. Lembrou da canção "O Rio de Janeiro continua lindo". Deu um sorriso de soslaio, meio satisfeito com o que Deus tinha feito e meio infeliz por não saber reconhecer da maneira que queria.

Foi até a calçada e correu. Corria para fugir e enfrentar ao mesmo tempo. Aparentemente corria sem motivo especial, mas sabia que a corrida iria dar em alguma coisa. Na calçada, num domingo qualquer sentiou que a vida pulsava dentro dele e nisso queria acreditar. Estava ali correndo, sob o sol de uma tarde comum, ultrapassando as pessoas como um jogador de futebol faz no campo ao driblar os oponentes. Mas ele não tinha oponentes. A única oponente era a vida, mas essa é impossível de driblar.

Correr por pura e simples vontade. Criaria a tautologia do correr. Sentir em seus músculos em ação, seu esforço surtindo efeito, a respiração num ciclo perfeito, o rítmo constante dos braços impulsionando a corrida, o vento batendo em seu rosto e levando com ele todo o medo, toda a insatisfação perante a dádiva maior de Deus.

Pensamentos em fofo num único objetivo: Correr. Nem Tom Hanks em Forest Gump correria mais, nem Lola Rennt. Ninguém era capaz de tirar sua concentração. Tinah apenas um desejos: se superar, correr, enfrentar, desafiar seu corpo, desafiar sua mente e, claro, nunca cair. Duelava e Combatia consigo mesmo. Uma batalha silenciosa a qual nenhum mortal conseguiria entender. Se sentia superior, saberia dar valor à vida como nenhum ser humano jamais conseguiria. Poderia olhar novamente para a luz, para a claridade. Só não podia cair, mas corria. E a velocidade aumentava cada vez mais. Numa linha reta naquela calçada, ele corria silenciosamente, sem parar. Correr até não conseguir respirar, até as gotas de suor caírem, até sentir sua mão úmida e cansada. Corria. Rápido, cada vez mais rápido. Correr sem se importar com a linda paisagem, com as pessoas que porventura tentariam o acompanhar, sem se importar com os acenos dos conhecidos. Correr e aprender a viver.

O coração bate acelerado. Enfrentava a vida. Corre. Um jovem de bicicleta tenta acompanhá-lo, sem sucesso.Um cachorro passa em sua frente atrás de um brinquedinho jogado por uma criança. Quase atropela uma madame que levava seu poodle rosa para um passeio. Espantou um bando de pombos. Corria mais. A respiração já estava ofegante, a garganta seca as roupas encharcadas de suor. Precisava parar. Estava exausto. Mãos doendo. Mas não pára. Corre. Corre. Corre. Correndo para viver, para sobreviver ao passado, aos erros, ao desastre, à dor. Desfazer o paradoxo, reconhecer que apesar da dor, há esperança, há vida. Aprender o novo e esquecer o velho. Ir para longe. Bem longe. Longe de tudo, sem se dar conta de que o longe é bem ao lado, é bem perto, é bem íntimo. Correr para perto de si. Ele contra ele mesmo. Ele contra o destino. Corria....

Mas de repente avistou uma ladeira. Descia descontrolado. O coração disparou. Sentia que ia cair. Não conseguia parar. Estava veloz, rápido. Muito rápido. Gritou. Mas não sentia medo. Libertou-se. Sentia-se livre. Encarava a luz. E quando uma pedra bateu contra a sua cadeira de rodas, foi lançado ao longe, caiu na calçada e ficou estatelado no chão. As pessoas se aglomeravam ao redor dele gritando e ligando para âmbulânica, socorrendo ou apenas olhando. Mas ele não ouviu nada. Nunca perdera a concentração. E ele então soltou um sorriso reflexo de seus pensamentos, sentimentos e suas sensações. Catarse. Agora sim sentia o sabor da vida novamente. Agora sim vivia na claridade. Ganhou a batalha e reconheceu seu oponente. Perdoou-se

Universal Truth

"It is a truth universally acknowledged that a single man in possession of a good fortune must be in want of a wife."

[É uma verdade universalmente conhecida que um homem solteiro, possuidor de uma boa fortuna, deve estar necessitando de esposa.]

Jane Austen, em Pride and Prejudice

Poor Jane...mal sabia ela que não existem verdades universais...É tudo relativo!!

E mais um paradigma transformado em queijo suíço...cheio de buracos...

Olhar, Sentir

Quem dera ter seu corpo e sua mente impressos num papel por um instante! E seu amor fixado no meu peito para sempre!

Calado

Engulo anfíbios
Que separam o silêncio e travam a garganta

Coleciono inacabáveis abismos
Onde não se vê o lago de lág-rimas

terça-feira, março 04, 2008

Cachoeira

Queria ser nascente


Mas sou correnteza


Por minha vontade e minha essência


Crio redemoinhos


De água


E de vida


Tão doces como o córrego


Mais leves do que o que levo.


Sou um afluente


Formando meu riacho


Até minha derradeira queda


Onde encontro as pedras


Que sussurram


Jamais serei imensidão

Casa no campo

Comprarei uma casa no campo. Quero uma vaca, cinco porcos e dezesete galinhas. Arrumarei para elas um lugar tão calmo quanto arrumo para mim. Então, sentarei na minha preciosa cadeira com meu chapéu de palha, terei a proteção da minha espingarda ao meu lado, encostada na antiquada cadeira e, sentarei eternamente em frente a minha casa pequena esperando a morte vir e me levar.

Liberdade de expressão

Post Censurado

quinta-feira, fevereiro 14, 2008


Mas na manhã seguinte
Não conte até vinte
Te afasta de mim

Pois já não vales nada
És página virada
descartada do meu folhetim

Chico

terça-feira, fevereiro 12, 2008

Papo Cabeça


- Isso é um absurdo! - exclamou a trocadora impaciente no meio de um engarrafamento
- Nem me fale! Não tem cabimento fechar a cidade só porque o presidente dos Estados Unidos tá aqui - respondeu um senhor que hesitou em comentar, mas não resistiu à vontade brasileira de puxar assunto
- O Sr. já viu a quantidade de gente que veio com ele? Pior. A quantidade de gente que veio para ver ele?
- É... parece que fecharam até um hotel nessa mesma rua.
- Coisa de Americano, ne? Sempre espaçoso...
- Pois é! - retornou o senhor ao jornal
- Ah... mas o presidente da Alemanha também tá no Brasil e não fizeram essa palhaçada toda.

O senhor fechou o jornal, sorriu e disse:
- Ah, sim! Mas isso deve ser porque a Alemanha é parlamentarista.
- Hum... - calou-se a trocadora.

Agora


O presente é nossa verdadeira conquista.
O que passou e o que há de vir são meras conjeturas e especulações.

Figura


O calor que emana de ti dá à vida um ar impressionista, que nem a brasa do asfalto conseguiria retratar e nem Monet ousaria pintar.

domingo, fevereiro 10, 2008

Mona Lisa


Mona Lisa,

Vem ficar comigo.
Deixe o Leonardo pra lá.
Saia desse milenar castigo.
E deixa logo eu te amar.

Venero o teu sorriso.
E sei que nele, segredo algum há.
Com o mistério resolvido.
Sou o único que pode te libertar.

Em verdade, nunca negue
Que o Leonardo conseguiu te eternizar
Mas não tenhas medo e se entregue.
Porque eu também já sei pintar.

Metalinguagem

Escrevo sobre o amor porque me incomoda. É um desconforto insuportavelmente apaixonante.

Eiscreme


Aquele sorvetinho alemão já mereceu coberturas de caramelo, morango e chocolate. Agora, essa textura ariana é pura demais para aceitar companhia.

Jamais será um Häagen-Dazs!! Não pela presença excessiva do gelo, mas pela impossibilidade de excitar o calor amigo.

Aquele sabor não dissolve mais na minha língua. Mesmo assim, ainda pensa que todos se derretem por ela...

sábado, fevereiro 09, 2008

Perdão

Não existe perdão. Existem provas de perdão.

"E o seu perdão é uma mentira que a minha vaidade quer."

Panis et Circenses


"Mas a pessoas da sala de jantar são ocupadas em nascer e morrer"

But all the people having dinner inside are very busy with their food till they die!!

"Mandei fazer
de puro aço luminoso punhal
Para matar o meu amor e matei
às cinco horas na Avenida Central"


Mutantes / Marisa Monte

Barão


Encharcado de suor, largado na cama, viro pro lado, procuro meu Marlboro, fecho meus olhos, acendo o cigarro e no terceiro trago, exalo o odor tôrpego da fumaça por entre meus lábios semi-abertos e cansados. Portanto, ao me encontrar, cheia de carícias, não venhas quente, pois já não mais estarei fervendo.

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

Post Carnaval


- Cadê o superego desse povo??

- lálálá-ôôô lálálá-ôôô lié-lié créu créu crééu lálálá-ôuôuô

Zoológico




Placa de aviso aos racionais:

Mantenha distância da parte central do lugar onde nenhum animal ousa ir!
Não se deixe enganar pela oficina que parece uma floricultura infinita!
Sob hipótese alguma, se deixe levar pelo cheiro das flores e pelos tons de verde ao redor da jaula!

Mas, acima de tudo, não alimente a serpente!
Não faça com que o ócio tenha que criar mais outro Deus.

A humanidade não vai aguentar outro peso na consciência!

...

**Dor nas mãos?? Sim. Deve ser tendinietzsche!!

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

Cata-vento


E pelo meu sopro, pelo ar que invade meu peito e que libero como uma forma de expandir a angústia que há dentro de mim, vou contaminando aqueles que estão próximos a mim, aqueles cujo sopro me afeta de alguma forma, mas que não me contamina porque sou demasiadamente egoísta pra atrair a epidemia dos outros. Quero a dor só pra mim. Gosto do auto-flagelo.

E assim, nessa interação de ares e ventos que circunscrevem minha existência, lido com o vento interior. Vento leve como a brisa e que às vezes, de supetão, se torna rajada, e outras vezes, tufão.

Mc Donalds


- Oi gostaria do numero 18, sem picles, por favor
- Não temos número 18 senhor.
- Hum..me da um sorvete de morango,então, por favor.
- Não temos senhor. Só temos creme, chocolate ou mista.
- Napolitano?
- Não tem senhor..
- Tem de flocos?
- Só temos creme, chocolate ou mista, senhor - disse a impaciente atendente
- Nossa!! Não tem nada! Hum...Cancela o sorvete! Me da o numero 18 mas sem picles hein..
- Mas senhor...
- E um suco de abacaxi com hortelã também, por favor.
- NÃO TEM!
- Nem sorvete de brigadeiro como sobremesa?

...

Nonchalant

Eu sou o cocô do cavalo do bandido
Quando você passa, eu estou caindo.

Concluo então:

Não sou mais a mosca que pousara na tua sopa!

O Piano




[Imagem em preto e branco]

Aquela presença me incomoda e seu som me perturba num misto indescritível de delírio e melancolia. Aquele som grave opondo-se ao agudo e concomitantemente fazendo ressoar a dor que eu não ousaria pronunciar, o sentimento que não ousaria sentir, o silêncio que não poderia suportar, o período que não conseguiria terminar.

Explodo de fúria, mas não chego perto. Deixo o piano falar, deixo o piano tecer as notas e construir a realidade da qual pertenço. Deixo o piano desenhar com sua melodia a harmonia do meu coração. Deixo o piano me ferir com o gravíssono de seu som e deixo-o levitar minh'alma com a derradeira nota inaudível.

É a profana madeira negra que me atrai. Não. É a atmosfera sagrada que me perpassa. Invade-me o dedilhar da sinfonia insuportavelmente encantadora. Vibras e és. Vibras as cordas, És o piano. Não devo deixar me levar pelo piano. Imploro por um sustenido ou bemol, imploro pela insólita fuga do ordinário. Imploro para que toda a perfeição do piano destrua minha fantasia, acabe com minha dependência. E assim, mesmo perto, me afaste do piano e fique num lugar onde minha visão não possa o alcançar.

Hoje dou-te de costas. E hoje sou orgulhoso àquelas desafinadas notas. Fecho meus olhos. Mas deixo meus ouvidos abertos.

quinta-feira, janeiro 24, 2008

Hormônios


Falta serotonina nessa Pós-Modernidade.

Recanto


Aconchegante terra
De palavras psicografadas
Cantadas nova e eternamente

Oco




Abre-me uma gaveta ao peito
E cabe o infinito ali dentro
infinito da plantação

Rasga-me uma gaveta ao peito
E o peito é oco de amor
de ódio
de conquistas
de danos

Abre-me o closet rasgado
onde o peito bate vida ritmada
onde o segredo é realista
onde o mogno é surrealista

Rasga-me a gaveta aberta
e o peito sangrando
Um sangue branco
branco da cor do oco
oco da colheita
silencioso como a gaveta

Eis a ressonância do oco.

Amor-próprio


Todos dizem que ela deve amar, que deve encontrar alguém e ser feliz!!

E, para isso, primeiramente, ela deve amar a si mesma, ter amor-próprio.
Mas não. O amor dela é impróprio.

E o meu também.

Valsa




O meu coração bate infinitamente no compasso ternário. Cada tempo que se repete é o reflexo do meu som, do seu som e do silêncio que só nós conhecemos.

Amor


Após alguns lápis quebrados e tintas de canetas na minha mão vermelha e cansada, não consegui!

Não consegui definir o amor. Daí, levantei e concluí!
Não que o amor seja indefinível, inexprimível.
Na verdade, o amor é irreal, o amor não existe!!

Não em palavras!

sexta-feira, dezembro 14, 2007

Saudade errante

"- Odeio sentir falta das pessoas quando meu orgulho me proíbe de procurá-las"

Composição


Criação
Mente humana
Harmonia e Melodia


Fazenda
Fazendo sentimentos
Arando terra


Arte
Teoria lacto
Sentido stricto


Chamex
Vazio anti-melanina
Impressões coloridas

Praias de Março


"São as águas de Março fechando o verão..."

Mais uma temporada se passou e Regina andava calmamente como se tivesse todo o tempo do mundo para percorrer cada centímetro do calçadão preto e branco-desbotado de Copacabana. Uma atmosfera de bossa nova, uma leveza incontrolável que a fazia lembrar de seus antigos amores frustrados enquanto passeava pela orla. Andava e ouvia as músicas de Tom Jobim em sua mente.

Observava as ondas como se fossem as primeiras de sua vida. Era como se elas levassem tudo e não trazessem nada de volta. Observava com os olhos semi-abertos para proteger-se do sol, proteger-se de enxergar o que vai alem de seu entendimento.

"Vou te contar o que os olhos já não podem ver, coisas que só o coração pode entender..."

Ela não queria entender. Regina só queria sentir. Sentir as águas geladas baterem em suas pernas, cobrirem seus pés que levemente afundam na areia quase movediça da praia.

Regina sentia que o mundo era dela e que, apesar de todas as desilusões, ainda estava viva e precisava cuidar de seu bem mais precioso. Regina pensava, andava, imaginava e se questionava. Uma nostalgia das bonecas e dos programas de tv que assistira quando criança pairava sobre seus pensamentos. Seu primeiro beijo, sua primeira noite de amor, sua primeira noite de solidão. Lembrava de seu riso mais estridente, seu choro mais comovente e seu olhar mais penetrante.

Ela era assim, olhava para o azul-infinito do céu e sentia o contraste no azul-misterioso do mar. Era um azul que a hipnotizava e a chamava, que cobria o fundo de seus olhos, e escuro. Escuro e indecifrável.

O sol a iluminar tudo ao seu redor e seu íntimo a se manifestar no paradoxo do praia: o dia tão quente que a obriga a entrar na água tão gelada. O corpo tão sedento por calor que buscava refúgio na frieza de seus sentimentos.

Regina adorava o Verão, mas não o Verão carioca de noventa e sete graus. Ela gostava do calor que produzia em seu coração e de observar o crescimento das coisas ao seu redor. No verão as pessoas são mais verdadeiras, são mais nuas, são mais transparentes mesmo em contato com o amargo gosto do sal colado no corpo.

Agora era o fim de uma temporada. O odor intrépido da mareisa embrulhava o estõmago externando tudo o que havia de podre dentro dela e anunciando que agora todo o mau-cheiro deveria dar lugar ao Outono queé a estação onde caem as pétalas e o orgulho da alma.

E naquela época, a brisa do mar trazia mais saudade. Saudade do outro e saudade de si mesma. Era a despedida de si mesma que só iria ser encontrada depois de um ano, depois que dominasse o fenômeno da Translação. É como se a vida primitiva e crua desse lugar à vida cotidiana e pós-moderna de sempre. Cansava-se, mas alegrava-se ao saber que ainda tinha o resto do dia pra percorrer o calçadão, tomar uma água de côco e bater palmas para o pôr-do-sol no Arpoador.
Resumira-se no gosto doce da nostalgia na boca e na vitalidade de curtir algumas horas da mais inocente solidão permeada pela mais refrescante saudade. Esta que refresca a alma e aquece a vida.

Sentou-se nos mini-paralelepípedos que fromavam com as cores preto-fosco e branco-acinzentado, ondas quase iguais as do mar, mas que estavam mais perto e queimavam com os raios ultra-violetas. Já o azul do mar era gelado e qualquer raio de calor seria impenetrável em suas gélidas águas, a não ser o poderoso calor humano.

Ao esperar a última chuva do verão para renovar e lavar seus sentimentos mais antigos, Regina seguia a calçada conhecendo e desvendando sua essência e sua maré...

"A promessa de vida pro meu coração..."

Agonizando


Bem-aventurados os escritores acadêmicos!!
Bem-aventurados os leitores das referências bibliográficas complementares!!
Bem-aventurados os que inserem citações em seus textos!!
Bem-aventurados os que elaboram projetos na universidade!!
Bem-Aventurados os seguidores do teatro do Absurdo!!

Por fim, bem-aventurados os que não têm produção literária.

Catarse é uma coisa que machuca demais!!