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sexta-feira, setembro 18, 2009

Boa Sorte

Da noite pro dia
Nem sabia que aquela seria a última vez que eu a via
Da noite pro dia
Ela sorria e me garantia estar na maior alegria
Da noite pro dia
A ironia é serventia por conta da casa vazia
Da noite pro dia
Da noite pro dia

Então ela me deu um beijo no rosto e disse "Boa Sorte". Daniela. Sempre ela. Às vezes confundida com Gabriela, mas sem cravo nem canela. Feia, mas de personalidade. Virou o rosto de forma agressiva e saiu pela rua sem olhar pra trás fazendo barulhos insuportáveis com aquele salto alto. Presente. Odeio mulher que não sabe andar de salto alto. Exceto ela. Tinha certeza de que aquela cena era uma despedida. E assim que a última expressão foi dita, mentalizei canções de Vanessa da Mata & Ben Harper. Essa era Daniela na TPM. Mulheres que entram e saem da sua vida quando bem entendem são as mais ardilosas, principalmente durante a menstruação.


Pena dela. Perdeu a oportunidade de conviver comigo por mais tempo, pelo menos por hoje. Pena de mim, que me vanglorio perante o espelho por estar mais um dia sem ela e ainda assim continuar vivendo. Valia mais do que o troféu que recebi, por méritos duvidosos, do AA. Um ano sem uma gota de álcool. Não adiantou nada. Resto da vida sem uma gota de Daniela. Me recompus. Atrasado e confiante, pensando que Daniela iria, mas voltaria, iria de novo, mas voltaria de novo, como ela sempre faz, corri para não perder o 455.


Cheguei à conclusão de que coisas insólitas acontecem todos os dias. Cabe a você procurar motivos para tais eventos ou então banalizá-los. O mais importante é nunca ser o bonzinho da história. Prefira ser o canino ou o filho da puta. Assim, você nunca será subestimado e nunca vai conhecer um tal de amor-próprio que só serve pra deprimir as pessoas.


Corri, juro. Mas não consegui alcançar o ônibus. Nesses momentos em que me sinto psicologicamente atrasado e não apenas cronologicamente, sei que meu chefe está feliz. Sei também que ele já está na agência, sentado na recepção esperando o elevador abrir para, num sistema robótico, olhar para o relógio e para mim por 3 vezes seguidas religiosamente. A dramatização começa quando ele finge que vai me demitir e eu finjo que fico intimidado com a fisionomia séria dele. Na verdade, ele não faz isso porque se preocupa comigo, mas por prazer, porque isso é felicidade para ele. Ele tenta fazer da felicidade um costume. Quando eu chego no horário, ele me torna invisível. Odeio gente que não gosta de encarar a própria infelicidade. Exceto eu. O mais importante é nunca dar trela para um idiota, a menos que o idiota seja você.


Nunca disse que achava a Lei de Murphy justa. Leis foram criadas para favorecer uns ou outros. Se o beneficiário sou eu, certamente a lei está errada. Se fui correndo que nem um imbecil atrás de um ônibus que não parou e a cena deprimente foi vista por uma amiga da Daniela, ou se sofri por amor e por isso cheguei 20 minutos atrasado na agência, certamente a lei está certa.


No elevador tem um smiley que diz: "Sorria, você está sendo filmado". Acho estranho "está sendo" porque seria a mesma coisa dizer "é". As pessoas são prolixas, gostam de usar duas palavras quando apenas uma letra resolveria: "está sendo", "boa sorte". Se tudo que esperam de mim é um sorriso, eu sorrio. Sorrio no elevador, ponho o dedo no nariz, faço careta para a câmera, ou para o smiley sorridente; se tivesse alguém ali, eu treparia. Afinal, são 15 andares, tempo suficiente. Meu vídeo iria parar no top list do Youtube por uma semana, até algum ex-bbb se embebedar e dançar pelado na praia de Copacabana. Meus 15 minutos acabariam neste instante, mas ainda assim me restariam 15 andares de puro sorriso.


A verdade é que não se pode levar o ser humano a sério. Não se pode querer construir um relacionamento, uma família. Não se pode querer uma pessoa pro resto da vida. Simplesmente porque na vida você só vai encontrar filas. Filas no médico, no supermercado, no banco, na lavanderia, no cinema, fila de ônibus, de motel, de parque de diversões. Até pra fazer primeira comunhão tem fila. Fila pra gerar uma filha, para animais, cães principalmente da raça Fila. Fila para recolher as fezes dos animais mimados que andam pelo calçadão achando que o mundo é um penico gigante. Fila para pisar no cocô e fila para tirar a massa marrom entranhada no tênis cuja textura pastosa se desfarela em contato com água e escova escorrendo ralo abaixo até encontrar um esgoto, seu lugar.


Esse ser humano que pisou na merda de cachorro vai praguear com palavras ofensivas um outro ser humano que certamente estará no conforto de seu lar, numa cobertura qualquer, deitado em lençóis limpos, cama limpa, sofá perfumado e que nunca repete roupa. São seres humanos que de tão imundos chegam a criar anticorpos para tudo, enquanto o ser humano que não tem cachorros concorda religiosamente com o destino a que fora submetido. "Pisei na bosta" Amém. "Estou fedido" Amém. "Nem tenho cães" Amém. "Vou ter que limpar meu sapatênis. "Amém.


Bem, escatologia não é falar de fezes caninas, mas da sujeira do mundo, da nojeira do ser humano. Veja as próprias celebridades que se recusam a ir pro Centro de Reabilitação por achar emque são a personificação da atitude. Se bem que passei pelo AA, mas ainda continuo um estorvo para mim mesmo. Lembro que na época, ouvia muita música internacional. utilizava como toque do meu celular. Hora do almoço. 2 horas inteiras de ócio. Não posso ficar no ócio. Estou de dieta.


Lamento por todos que foram privados de minha companhia no almoço, mas principalmente por Daniela, que vai voltar arrependida pros meus braços, para logo depois se desarrepender e virar o rosto de forma agressiva enquanto compõe uma sinfonia desafinada com seu salto alto. Dane-se Daniela. Nos conhecemos num período crítico de nossas vidas. Eu pensava em me matar e ela achava que era lésbica.


Enquanto eu estava num banco de praça lendo uma revista sobre Web Design, ela me avistou do ônibus. Preguiçosa demais para pensar em seus próprios problemas, ela ficou me observando. E num curto momento em que eu fui espantar um pombo de perto do banco, cruzamos olhares.
Naquele momento, concluiu que era eu o grande amor de sua vida. Desceu correndo do ônibus e veio em minha direção. Esbaforida e meio tímida. Chegou perto de mim e se apresentou como Julia Roberts. De cara percebi seu complexo de inferioridade. Isso me ajudou a superar minha timidez. Dali em diante concluí que ela era louca. Freud nem Lacan explicariam. Mesmo com vergonha dos meus dentes separados, sorri.


Apenas sorri e quando percebi que meu silêncio constrangia nossa conversa e que eu estava a ponto de perdê-la, desandei a falar, falar, falar coisas sem sentido, semi-organizadas e confusas, mas que surtiram efeito. Tivemos uma tarde feliz no balanço do playground, na sorveteria e no Sexy Dreams. Foi lindo.


Sempre senti nojo daquele doce com pozinho azedinho onde enfiávamos o pirulito já babado para recolocar na boca. Naquela noite não me importei em compartilhar aquilo com Daniela, mesmo depois do sexo oral que ela fez em mim. Nem fui egoísta de não dividir aqueles chicletinhos quadradinhos que vinham numa embalagem onde tinha uma carinha com um sorriso. Definitivamente interpretei aquilo como amor. Amor pro resto da vida. Amor pro resto da morte. Sempre soube que não haveria espaço pra mim na vida dela e nem pra ela na minha vida. E digo isso sem nenhuma melancolia. Odeio essas pessoas que não têm o que fazer e ficam procurando depressão onde não existe. Exceto eu.


Me masturbo com a mesma facilidade que distribuo sorrisos falsos. Ambos me ajudam a viver relativamente em paz com os outros e me livram do suicídio.


Acho que estou falando mais do que o que vim aqui abertamente falar. Não importa quantas vezes Daniela vai embora. Haverá as brigas, os tapas, os beijos e abraços, os momentos de reconciliação, de intimidade e de vergonha que passei só para agradá-la. Lembro daquela vez em que ela me pediu pra imprimir pornografia na agência porque não queria gastar tinta de sua impressora. Então, aproveitei um momento de calmaria no trabalho, liguei a impressora. Eis que surge o meu chefe. Diria até que tinha adivinhado que eu estava fazendo merda. Então, surge meu chefe caminhando em câmera lenta na minha direção. Pálido, puxei os papéis, que murphymente agarraram na multifuncional HP. Sinto em informar, mas discrição não é o forte para alguém da minha altura.


Publicitário, 29, Demitido. Encontrado com pornografia em ambiente de trabalho. Isso era o que passava pela minha cabeça ao ver aquele velho disforme na minha direção. Ele se aproximava e a máquina fazia barulhos estranhos por causa dos papéis entulhados.


Parou do meu lado e perguntou: "O que está acontecendo?" Mostrei minhas mãos sujas de tinta preta e disse: "Mandaram imprimir alguma coisa aqui, mas o papel atolou", com a maior naturalidade do mundo. "Deixa que eu tiro então", disse com aquela voz rouca, num tom de impaciência e briga típicos de viciados em charuto. "Não, não. Faço questão, Seu Moacyr", disse eu, num esforço sobrehumano para parecer solícito, desafiando assim minha natureza. Ele puxou um papel da minha mão, tinham uns contornos pontilhados bem falhados no papel amassado e borrado. "O que é isso?", perguntou arqueando as sobrancelhas. "Não sei..." disse, reticente. Jogou o papel no chão, fez um comentário incompreensível sobre a imaturidade alheia e seguiu seu rumo. Ao perceber uma pequena gota de suor na minha testa, tive mais uma conclusão sobre a vida: o mais importante é sorrir. Mesmo que esteja prestes a ser demitido, sorria. Mesmo que esteja odiando as pessoas à volta, sorria. Mesmo que seus impulsos percam para as viadagens do seu superego, sorria. Ao ajudar os outros, você sempre se ferra. Ainda assim, sorria.


Uma vez, um diretor de arte bem experiente veio me perguntar quem tinha trocado as cores do banner que ele fizera. Claro que tinha sido eu, num dos raros momentos em que tive poder. Não concordei com o gradiente rosa da campanha, mudei pra vermelho que é quase a mesma coisa, ninguém notaria. Ele desconfiou que tinham mudado e sabia que fora eu. Percebi pelo "veja bem". Odeio essas expressões que disfarçadamente nos preparam para um sermão. "Veja bem, quando você viola uma lei..." "Veja bem, o que acontece é o seguinte" "Veja bem, o fato de você ter feito aquilo". Gosto de tudo direto. "Por que você trocou a cor do banner que eu, super-fodão, fiz?" Por que ele não chegou logo assim? Ficou esperando uma confissão? Se não tinha dito no momento em que alterei a cor, o que o leva a crer que darei minhas mãos às algemas dele logo neste momento? Que tipo de poder ele acha que exerce sobre as pessoas? Odeio gente que vive de rodeios pra tentar manipular o outro. Exceto eu. E o mais importante é negar sempre, até a morte. Mesmo que ninguém acredite em você.


O mais importante também é destruir os inimigos aos poucos. Ultimamente tenho sabotado os vídeos publicitários de um colega retardado da agência. Comecei com uma difamaçãozinha aqui, uma fofoca acolá. Depois aumentei. Uma ediçãozinha mal-feita, um corte onde não deveria, inclusão cenas para o comercial passar de 30 segundos, alteração na cor, no contraste, no som. Enfim, nada disso adiantou. Nada contribui para a derrocada alheia. Ele não perde a arrogância nunca.


A última que pensei foi em pôr dinamite no carro dele para assim que ligasse a chave, o acidente acontecesse. Em tese, faria um bem ao meu ego, pois não teria que aturar competição de gente arrogante, teimosa e burra. E, claro, meu país agradeceria, pois minha atitude só faria gerar mais empregos.


Óbvio que não quero que meu nome vá parar na mesa da Dona Carmem. Mas quando falo em Carmem imagino logo uma gorda cheia de varizes, com cara de traquinas, vocalista de um grupo de música indiana o qual jura que faz sucesso. E, claro, muito mau-hálito. É assim que gostaria de encontrar Daniela: gorda, expulsa de um cortiço e jogada na sarjeta sustentando fiapos de dignidade.


Tá bom, confesso. Só penso nisso de vez em quando porque no fundo eu só quero o bem dela, quero bem a ela, mesmo achando que fosse melhor o contrário. Da última vez que Daniela foi embora foi por causa de Raíssa, minha vizinha. O estopim da separação foi quando adicionei a Raíssa no orkut. Ela negava até a morte, mas morria de ciúmes. Na verdade, tinha encontrado a Raíssa lá próximo à agência, ela disse que a mãe dela trabalhava por lá, daí a convidei para uma festa de fim de ano da agência onde soube que ela deu pra geral. A partir desse evento, passamos a nos falar. E alimentar ainda mais o ciúme sem razão de Daniela. A Raíssa é a típica eterna adolescente. Gosto de mulheres maduras, exceto Daniela. Nunca iria rolar, sabíamos bem. Teve um dia que peguei o elevador com Raíssa e, Daniela, meio bêbada, repetia rapida e incessantemente "bocadeboqueteira, bocadeboqueteira". Raíssa virou-se, não sei se ficou chocada com o linguajar e o teor de álcool de Daniela ou com minha cara cínica de "não faço idéia do que esteja acontecendo!". Nunca mais falou comigo. Que pena. Odeio gente que leva tudo pro lado pessoal. Exceto eu.


Contudo, o mais importanté é que o amor é a maior furada do mundo (depois da família, claro). O mundo seria bem melhor se as pessoas não se apaixonassem, antes, ficassem amigas para sempre sem ultrapassar a linha tênue que desestabiliza a auto-suficiência. Sei que em todas as relações que pensei ter amado, ficou algo não resolvido, não solucionado e fingidamente esquecido. Algo que permanecerá sem resolução pra sempre devido a intimidade que se perde com o tempo. A furada maior é estar preso a um momento em que é tarde demais pra qualquer ponto final; é estar deixando lacunas no que se entende por liberdade.


Estar deixando, vamos estar deixando. Inseri um gerundismo telemarketiano numa redação publicitária do Hans, meu rivalzinho de trabalho. Aquele mesmo que matei com as dinamites. Sentei e fiquei esperando a apresentação dele fracassar. Não deu certo. Ele, sem parecer desconcertado, dizia que era a linguagem do século XXI e que estava pautado em teorias lingüísticas para tal. Me pergunto até hoje se ele era desses intelectualóides que tinham mania de relativizar tudo ou se era tudo fruto de má formação na Estácio de Sá.


Daniela some e aparece, reaparece e resome. Eu só mordo e assopro porque sei que não são só meus amores que estão repletos de coisas mal-resolvidas. Odeio ambigüidades, exceto a minha. Mas sou assim porque tenho certeza de que ela vai sempre me procurar em outros beijos e abraços, assim como já a encontrei desta forma. A diferença é que ela sempre passa pra mim, mas eu sempre fico pra ela. Ela nunca soube lidar com rejeições. Eu me acostumei.


E volta a cadela arrependida. Sente saudades do que houve entre nós. Pensa em tardar a comparecer no meu aniversário pra medir o quanto ainda estou apaixonado; pensa em se casar com outro homem pra medir o quanto ela vai pensar em mim. O que ficou mal-resolvido, mal-resolvido sempre estará. Não adianta. Ela sempre será minha. E viveremos sempre nesse nosso jogo de esconder a nossa falta de aceitação por gostar tanto um do outro. Mas o tempo passou e daqui a pouco eu volto pra casa cabisbaixo, triste...


Explosivos devidamente colocados no carro do mauricinho. Expediente terminando. Nem revejo nenhum banner pra distribuir pros pontos de venda. Volto pra minha casa ver seriados adolescentes e engordar.


No caminho de casa observo pessoas. Alegres, tristes, feias, bonitas. Sempre penso em Adriana Calcanhoto nessas horas. Sei que é sinal de depressão. Sempre penso em programar meu celular pra tocar música internacional. Penso em ter uma depressão mais exagerada , mas não me permito abrir a porta dos meus porões. Hesito perante a expectativa do toque sem a minha programação. Deixo a sorte escolher a música e me desejo "Boa Sorte" sempre.


As pessoas me observam também, sei que sou invisível e à primeira vista, bem rápida, o máximo que devem pensar é "bonitinho, aquele rapaz alto". Mas me acho sem-sal. Para gostarem de mim, preciso de um olhar mais profundo. Preciso de alguém que me aceite e me abrace e me compreenda e me sorria. Como Daniela nunca fez.


Chego em casa e vejo malas alojadas no canto da sala. Casa limpa e arejada, cheiro de comida não-congelada. Minha mãe resolvera se hospedar. Mal sabíamos que Daniela tinha intenções românticas de dividir o apartamento sem ter nenhuma despesa por isso. Matriarca e Amante, mesmas intenções.


Eu também mal imaginava que Daniela iria ficar puta porque minha mãe estava jantando comigo, em silêncio. Nunca se sabe o diálogo que poderia haver entre mãe e filho tão distantes, e ela não fez nenhum esforço pra me salvar do meu constrangimento. Horas depois, a movimentação de viaturas de polícia e bombeiros me daria a secreta certeza de que o meu plano tssassino tinha dado certo. E, de tão péla-saco que ele era, deve ter levado mais gente consigo em sua BMW. Graças a Deus que lembrei de limpar as impressões digitais.


A educação súbita de Daniela fez com que minha mãe subitamente me deixasse me paz. Mas Daniela decidira ir embora novamente deixando mais uma vez o relacionamento em aberto. Saiu com rumo certo pra ela, incerto pra mim.


Na verdade, achava que investigadores da polícia junto com os CSI enxeridos iriam bater à minha porta antes disso, para questionar as razões das pesquisas sobre pólvora e explosivos em meu computador. O mais importante é saber que há sempre alguém vigiando você mesmo que você não veja. Seja a secretária da agência, seja pela página do orkut, seja pelos vizinhos vingativos, etcétera. Por isso, não se esqueça de apagar o histórico do seu computador antes de voltar para a casa. Assim, poderás dormir com a consciência tranqüila.


Durmo com a consciência tranquila sempre que penso em Daniela. Nunca entendi o nosso relacionamento por completo, mas entendi que só me sentia completo com as coisas mal-resolvidas, sem completude, sem ponto final, apenas virgulas, travessões e infinitas reticências. Pra sempre.


Quando cheguei aqui no hospital da polícia, encontrei Dona Carmem, a secretária da agência. Soube que ela foi encaminhada para um hospício a causa de seu surto e descontrole emocional. Acusava a todos da agência pela morte do namorado de sua filha, meu colega de trabalho, o Hans. Ela tinha sérias acusações principalmente contra mim. Nem imagino o porquê. Afinal, consegui provar que as pesquisas sobre explosivos do meu computador faziam parte da campanha que estava promovendo como freelancer pra uma empresa famosa. Quis trabalhar o conceito de explosão como algo novo e que causa impacto no mercado e assim, poder desenvolver minhas estratégias de criação e etc. A galera da delegacia me achou muito inteligente, ainda mais quando disse que estavam gravados no computador porque pretendia incluir as imagens no meu portfólio profissional. Publicitário tem dessas coisas, lábia.


Além do mais, o principal suspeito era o Seu Moacyr que estava namorando a filha dela, a Raíssa, minha vizinha e amiga de orkut. Inclusive, essa menina estava saindo com o morto, sabia? Dizem as más línguas que o jeito machão do Seu Moacyr não admitiria uma coisa dessas. Crime passional, sabe como são essas coisas.


Como a Dona Carmem está com sua sanidade debilitada, eu tive que vir aqui reconhecer o corpo da moça que estava no carro que explodiu, já que sou vizinho, solícito e seu Moacyr está preso. O mais importante é sempre ser honesto e espalhar a verdade por toda a parte, ne?

Bem, já estou muito ansioso e estou esperado aqui nesse lobby de hospital por mais de 2 horas, amigo. Aquele lá fazendo sinal não é o legista? Bem, acho que devo acompanhaá-lo. Deseje-me boa sorte, amigo.


- É naquela sala ali. A segunda maca, o corpo coberto com o saco preto.

- Obrigado, doutor. Vou verificar.

Um pouco aflito pelo cadáver, mas ansioso para voltar à vida sem crimes, sem seu Moacyr e à eterna espera pelos infindos retornos de Daniela, suspendi o saco preto.

Emudeci. Hesitei. Agora sim, tive certeza de que aquela cena era uma cena de despedida. Boa Sorte, Daniela.

Da noite pro dia
Nem sabia que aquela seria a última vez que eu a via
Da noite pro dia
Ela sorria e me garantia estar na maior alegria
Da noite pro dia
A ironia é serventia por conta da casa vazia
Da noite pro dia
Da noite pro dia

quinta-feira, outubro 23, 2008

Metade

"Eu perco o chão. Eu não acho as palavras
Eu ando tão triste, eu ando pela sala.
Eu vejo a hora, eu chego no fim
Eu deixo a porta
Aberta.
Eu não moro mais em mim.

Eu perco as chaves de casa, eu perco o freio.
Estou em milhares de carros, eu estou ao meio
Onde será que você está agora?"

Seja bem-vindo à fossa, disse Adriana Calcanhoto.

Fabíola decidiu associar-se ao clube. A partir de agora, seria a mais nova integrante do esgoto sentimental. Jamais estivera disposta a utilizar seu sentido olfativo para experenciar o coração. O que há de sofrimento por lá~conhecia muito bem, e essa fossa, ela não queria cheirar.

Fabíola pôs os comprimidos na bolsa, entrou no carro e dirigiu. Dirigiu sua vida pro abismo. Trocaria o buraco da sisterna pelo buraco sem fim. Transtornada, no primeiro sinal vermelho, quando era obrigada a parar, olhava para os comprimidos e chorava. Rios de lágrima. Chorava de infelicidade sim, chorava para que o choro fosse tão intenso que, por segundos entupisse o nariz e assim não sentiria o cheiro daquela alma jogada na sarjeta. Chorava de raiva também porque o sinal vermelho a obrigava a parar. E ela queria dirigir. dirigir seu carro, dirigir sua vida.

Fabíola acabara de ultrapassar o quarto sinal amarelo. Afinal, sinal amarelo é psicológico. Ninguém nunca sabe ao certo o que fazer, não fubnciona nem como um estímulo, logo não tem uma resposta empiricamente behaviorista pras atitudes que o ser humano possa tomar.

E Fabíola chorava para não falar, para não dizer. Pelo visto não era só seu olfato que estava comprometido.

Não é infelicidade de amor, relacionamento. Também não sabia o que era. Só sabia que estava triste, amargurada. Era saudade do que não viveu. Pior do que saudade do que poderia ter vivido. E Fabíola não sabia como sair, não sabia como fugir, não tinha pra onde ir.

Fabíola andava tão triste, e na longa estrada, entre milhares de carros, se deu conta de que tinha chegado no fim.

Deixou a bolsa aberta e engoliu os comprimidos. Perdeu o freio.

domingo, julho 06, 2008

Assim que chegar...

Dá um toque? Assim que chegar, dá um toque?
Só um toque pra dizer que chegou, pra dizer que vai chegar, pra dizer que vai ficar. Pra dizer que foi rapidinho, que pensou em mim no caminho. Liga depois da visitinha na casa da sua tia, da ida ao dentista. Liga só pra dar notícia, pra me contar do amanhã, pra me fazer ninar, pra me desacreditar do destino. Só um toque, tá? Quando vc chegar.

Só pra isso. Dá um toque, por favor. Assim que você chegar, ok?
Mas dá um toque de verdade, pra valer. Aquele que me fascina, um toque por toda a eternidade, que me ocupa tempo e espaço. Que me ocupa. Eu. Pra mim.

Dá um toque, vai, assim que você chegar.
Pode ser um toquinho rápido. Pode ser às seis da manhã, hora de amanhecer. Hora de um tempo virar outro. Hora da luz se acender. Hora de sempre mudar.

Dá um toque, assim que chegar, please.
Pra me contar mentiras, pra dizer que sentiu minha falta, que me deseja. Pra dizer que pensou em mim ou que nunca pensaria em nós.

Um toque, beleza?
Preu ouvir tua voz. Deixa eu escutar meu som virtual, deixa eu escutar teu som real, tua voz, tua rspiração. Só a respiração. Só ela já me satisfaz. Dá um toque pra mim. Dá um toque pra nós. Dá um toque pro nosso amanhã. Deixa uma razão pra gente se ver. Deixa uma razão pra gente dizer, enrolado em toalhas, na soleira da porta, cheios de ternura olhando para o jardim, que nós crescemos e nos amamos.

Dá um toque quando você chegar
Pra dizer que me ama, que não me ama mais.
Pra dizer. Só pra dizer.

sexta-feira, julho 04, 2008

Nem toda nudez será castigada


Então acordei com um gosto doce na boca, envolto num aroma suave que meus lençóis carregavam. Tive a sensação de que violara algum corpo recentemente e que em troca, tal corpo violara minha alma. Senti o rastro da volúpia e a armadilha do amor. Percebi na temperatura que era uma atmosfera de paixão mas minha nudez tinha um significado que eu desconhecia. Tinha uma frieza reconfortante que, contraditoriamente, contrastava com o ardor do silêncio do meu quarto e com as palavras transpostas em sentimento que não conseguia arrancar de minhas roupas espalhadas pelo carpete marrom.

Meus sonhos me enganavam pois eram sim extensão da minha realidade. Nesse simulacro, levantei-me de supetão tentando decifrar os ingredientes que compunham o ar do meu quarto, do meu esconderijo. Certamente cheirava a sexo, mas a essência ainda era desconhecida. Vesti a calça e procurei pela camisa em toda parte. Foi quando a vi cobrindo o corpo de uma mulher. Vi que minha camisa não era mais posse minha. Nunca mais seria. Pertencia a ela e não mais sentira como se fosse minha.

Fiquei à espreita observando aquela que tirara a camisa de mim, aquela cujo corpo se apossou do único tecido capaz de cobrir a minha nudez despretensiosa. Percebi que a camisa fazia parte de mim, mas que a minha parte agora pertencia a ela. Dona da minha nudez. Poderia agredí-la e pegar de volta minha camisa, mas me sentiria um sequestrador e , além do mais, isso não faria com que a camisa voltassee pra mim. Voltaria sim, mas com o cheiro dela, com o aroma daquele corpo, com vestígios daquela alma. Percebi então que deveria encarar um amor pra-vida-inteira. Não queria mais um amor de-vez-em-quando. E um amor decidido que invade meu esconderijo e retira de mim tudo o que há de melhor e tudo que jamais emprestaria a alguém.

A cumplicidade dos lençóis e a condição da camisa me levaram a um nível inatingível de sentimento. Acho que foi o tão banalizado amor que me prendeu num sorriso curto e simples ao me deparar com ela na cozinha e ouvir um cumprimento matinal qualquer. Descobri então o que descobria meu ser. Descobri nela o que a camisa cobria em mim. A minha nudez precisava ser compartilhada e minha relação metonímica com o pano guardador de segredos despiu meus sentimentos e vestiu minha esperança.

Ao ver, sobre a mesa, o meu sagrado sucrilhos com nescau preparado, tive o meu momento epifânico. Foi quando entendi que aquilo que estava vivendo duraria para sempre.

Sexta-Feira Santa

Sexta-feira Santa. Feriado. Acabo de acordar. Mais um dia normal como todos os feriados, me mostrando que a vida é tão inútil quanto os dias úteis. Ignoro toda e qualquer manifestação religiosa que possa surgir em minha frente. Estou lendo Nietzsche essa semana. Ou era Schopenhauer? Bem, estou sonolento. Fato. Acho que estou com torcicolo. Tenho a impressão que tive um sonho. Não sei bem se era sonho ou pesadelo. Não dou muita importância, afinal, ainda estou sonolento. Penso coisas improváveis como “todos carecem ocultar seus segredos mais perversos”. Não dou atenção. Ainda estou sonolento. Além do mais, não tenho coragem de abrir meus porões e acender a luz pra ver o que vou encontrar.

Minha geladeira está vazia. Preciso de carne. Me sinto tão carnívoro. Vomito sobre tudo o que é verde. Será que vende carne na sexta-feira santa? Se não tiver carne, compro peixe. Não custa nada ser marítimo um dia apenas. Em nome de Cristo. Pego a primeira calça jeans escura que vejo na frente e me dou conta que só tenho camisas pretas. Pego a mais nova, ainda com a etiqueta. O incômodo que o roçar do papel na minha nuca causa não é nada comparado ao flagelo de Cristo pela Via Dolorosa. Acho que gosto de me punir de alguma forma. E nunca uso sapatos. É preciso tirar os sapatos da mente para me tornar um ser humano mais amplo.

Não consigo rir de minhas pequenas ironias. Estou morto por dentro, morto num feriado. Mas caminho descalço por caminhos tortuosos e sujos. Não encontro açougues abertos. A minha carnificina interna jamais será alimentada. Decido ir ao Porto que me relembra a atmosfera simplista a fim de cumprir minha promessa marítima. Não vou por causa dos peixes, vou por causa do cheiro e do vento que viola meu corpo e o meu corte asa-delta. Paro em frente a Baía de Guanabara. Reflexo da sujeira do meu interior. As águas sujas são puro espelho. Sou guiado pelos pequenos paralelepípedos que me levam à comida embrulhada em jornais que expõem tragédias e o clima nacional. Pago e recebo o troco. A moça atrás do balcão sorri. Meio amiga, meio inimiga. Meio íntima, meio desconhecida. Deve ser a Sexta-feira.

Espero os peixes que são dilacerados na minha frente. Não esboço reações. Vejo a morte perto de mim, mas sou incapaz de sentir algo. Represento num palco o que me convém. Quero ver até onde meu personagem consegue testemunhar. Ao me deparar com a morte e não reagir, percebo até que ponto vai minha normalidade.

Os segundos se passam e o sangue escorre. Olhos esbugalhados que não são meus. Sinto uma pontada de volúpia perante o ardor daquele momento. Que tipo de ser humano sou eu que me satisfaço com requintes de crueldade? Presencio a morte e me calo. Não impeço o escorrer do sangue. Ultimamente desobedeço os meus instintos: não me choco perante as circunstâncias e a vida segue assim.

A assassina me entrega o embrulho. Por mais simpático, amigável e íntimo que seu sorriso possa parecer, não me esqueço da sujeira vermelha de suas mãos. E não adiantaria lavar nem esfregar com bucha. A água é incapaz de celebrar a morte.

Tenho sede por peixes. Compro dez quilos e os quero tão ensangüentados quanto os outros. Não me conformo com a sina deles e nem sou eu quem lhes atribuo o destino. É a sexta-feira. Santa. Decido que terão um destino menos trágico. E os quero nojentos como são. Por um momento a moça não traz mais o sorriso em seu semblante. Olho, de relance para seus dedos, instrumentos de aniquilação e percebo a aliança por entre os dedos macios. Teria família? Marido? Filhos? Não importa. Nada trará os peixes de volta.

Isso me faz sofrer. Mas não hesito em exibir a morbidez em meus braços, o embrulho da tragédia e o jornal anunciando tragédia e meteorologia em meus braços. Suporto a dor e o odor. Volto à Baía de Guanabara. Todos me olham, mas não me importo. Nenhum deles têm os olhos esbugalhados. A sexta-feira da paixão está prestes a se findar no seu ritual religioso e eu estou prestes a cumprir minha promessa. Corro até as pedras, frente ao mar. Minhas mãos são trêmulas, mas meu desejo é firme. Sempre fui inconstante, sempre fui carnívoro. Hoje é preciso jejuar para que me sinta menos pecador. Abro o embrulho e devolvo a vida morta ao mar. Jogo cada pedaço, um por um, o mais longe que puder. Jogo-os com toda a minha força. E nunca me importo com os que observam. Eles não sabem que já fui carnívoro. E a vida segue assim.

quarta-feira, julho 02, 2008

Cedo Demais


Maria dormia. Tinha um sonho agradável em que era uma super-heroína e salvava o mundo de algum vilão de máscara negra e capa esvoaçante e bem na hora do beijo no mocinho, antes de subir os créditos finais, o despertador tocou. Maria levantou e pôs os chinelos. Rapidamente foi ao banheiro, pôs a pasta na escova e 5 segundos depois já estava penteando seus cabelos esvoaçantes e escolhendo a dedo 1 dos 15 frascos de perfume sobre a penteadeira. Escolheu o da esquerda. Sua mãe gritou pra avisá-la de que estava atrasada. Ela resmungou, queria dormir mais um pouquinho, mas precisava ir pro estúdio de Cinema onde trabalhava há 1 hora e meia de sua casa. Vestiu a blusa e o jeans correndo. Desceu as escadas, balbuciou um "bom dia" para algum fantasma, pegou uma rosquinha e um copinho de iogurte, e ao mesmo tempo em que calçava o all star verde claro, andava em direção à porta da rua. Bateu a porta e acordou.

Que barulho chato desse despertador. Dirigiu-se ao banheiro e a pasta já estava na escova. Depois de 3 segundos escolheu o perfume da esqueda e calçou o jeans e o all star verde. Deu bom dia para a mãe e ouviu um fantasma a convidar pra tomar café. Pegou uma rosquinha e um iogurte e correu em direção à porta ao mesmo tempo em que vestia a blusa. Bateu a porta e desceu as escadas.

Pegou um iogurte, não tinha mais rosquinha. Calçou o chinelo e levantou-se da cama. Não escovou os dentes. Cadê o perfume da esquerda? Bom dia mãe. Vem tomar café, querida! Vestiu o jeans desbotado e pôs a capa esvoaçante enquanto se dirigia à porta da rua. Bateu a porta e calçou o all star amarelo.

Prendeu o cabelo e escolheu a dedo os 3 perfumes na penteadeira. Um fantasma pusera pasta de dente em sua escova. Cadê a mamãe? Tá comendo rosquinha. Vestiu o jeans e pôs a máscara negra. Pegou um iogurte enquanto se dirigia à porta da rua. Bateu a porta, mas não estava atrasada. Um fantasma calçou o chinelo e deu bom dia à Maria. Ela respondeu. Pegou um iogurte e uma rosquinha e depois foi escovar os dentes. O despertador tocou. Calçou o chinelo. Pegou um perfume e foi em direção ao estúdio de Cinema. Desceu as escadas e pegou a blusa da esquerda. Pôs pasta de dente no all star verde-musgo.

Maria estava sonhando que era uma produtora de Cinema e que trabalhava a 1:30 de sua casa, mas sabia que era uma heroína. Tinha uma máscara verde-claro e uns cabelos esvoaçantes. Odiava perfume e só bebia iogurte. Brigou com um fantasma e sonhou que tinha uma família, uma mãe. Calçou os jeans e foi lutar contra o crime.

O despertador tocou, a mãe de Maria foi avisá-la de que estava atrasada. Bateu a porta ao mesmo tempo em que escovava os dentes. Pôs os chinelos e o jeans da esquerda. Voltou a sonhar. Está prestes a acordar.

sábado, março 15, 2008

Correr




O sol nasceu. Momento exato para se começar o dia. Pelo menos para alguém que encobria sua madrugada tumultuada cheia de segredos e pecados na claridade ofuscada pela cortina vinho na janela de seu quarto pela manhã. A manhã sempre fora fictícia...era escura, negra como a noite...a escuridão que escolhera diferentemente daquela imposta pelo sistema solar.
Agora já não mais fugia da claridade, da luz. Precisava enfrentá-la e assim o faria. Tentaria fugir, mas enfrentaria. Esse paradoxo dava vida à sua conturbada vida. Vida esta que há poucos anos não mais aceitava.


Abriu a porta. Lagoa Rodrigo de Freitas. Lembrou da canção "O Rio de Janeiro continua lindo". Deu um sorriso de soslaio, meio satisfeito com o que Deus tinha feito e meio infeliz por não saber reconhecer da maneira que queria.

Foi até a calçada e correu. Corria para fugir e enfrentar ao mesmo tempo. Aparentemente corria sem motivo especial, mas sabia que a corrida iria dar em alguma coisa. Na calçada, num domingo qualquer sentiou que a vida pulsava dentro dele e nisso queria acreditar. Estava ali correndo, sob o sol de uma tarde comum, ultrapassando as pessoas como um jogador de futebol faz no campo ao driblar os oponentes. Mas ele não tinha oponentes. A única oponente era a vida, mas essa é impossível de driblar.

Correr por pura e simples vontade. Criaria a tautologia do correr. Sentir em seus músculos em ação, seu esforço surtindo efeito, a respiração num ciclo perfeito, o rítmo constante dos braços impulsionando a corrida, o vento batendo em seu rosto e levando com ele todo o medo, toda a insatisfação perante a dádiva maior de Deus.

Pensamentos em fofo num único objetivo: Correr. Nem Tom Hanks em Forest Gump correria mais, nem Lola Rennt. Ninguém era capaz de tirar sua concentração. Tinah apenas um desejos: se superar, correr, enfrentar, desafiar seu corpo, desafiar sua mente e, claro, nunca cair. Duelava e Combatia consigo mesmo. Uma batalha silenciosa a qual nenhum mortal conseguiria entender. Se sentia superior, saberia dar valor à vida como nenhum ser humano jamais conseguiria. Poderia olhar novamente para a luz, para a claridade. Só não podia cair, mas corria. E a velocidade aumentava cada vez mais. Numa linha reta naquela calçada, ele corria silenciosamente, sem parar. Correr até não conseguir respirar, até as gotas de suor caírem, até sentir sua mão úmida e cansada. Corria. Rápido, cada vez mais rápido. Correr sem se importar com a linda paisagem, com as pessoas que porventura tentariam o acompanhar, sem se importar com os acenos dos conhecidos. Correr e aprender a viver.

O coração bate acelerado. Enfrentava a vida. Corre. Um jovem de bicicleta tenta acompanhá-lo, sem sucesso.Um cachorro passa em sua frente atrás de um brinquedinho jogado por uma criança. Quase atropela uma madame que levava seu poodle rosa para um passeio. Espantou um bando de pombos. Corria mais. A respiração já estava ofegante, a garganta seca as roupas encharcadas de suor. Precisava parar. Estava exausto. Mãos doendo. Mas não pára. Corre. Corre. Corre. Correndo para viver, para sobreviver ao passado, aos erros, ao desastre, à dor. Desfazer o paradoxo, reconhecer que apesar da dor, há esperança, há vida. Aprender o novo e esquecer o velho. Ir para longe. Bem longe. Longe de tudo, sem se dar conta de que o longe é bem ao lado, é bem perto, é bem íntimo. Correr para perto de si. Ele contra ele mesmo. Ele contra o destino. Corria....

Mas de repente avistou uma ladeira. Descia descontrolado. O coração disparou. Sentia que ia cair. Não conseguia parar. Estava veloz, rápido. Muito rápido. Gritou. Mas não sentia medo. Libertou-se. Sentia-se livre. Encarava a luz. E quando uma pedra bateu contra a sua cadeira de rodas, foi lançado ao longe, caiu na calçada e ficou estatelado no chão. As pessoas se aglomeravam ao redor dele gritando e ligando para âmbulânica, socorrendo ou apenas olhando. Mas ele não ouviu nada. Nunca perdera a concentração. E ele então soltou um sorriso reflexo de seus pensamentos, sentimentos e suas sensações. Catarse. Agora sim sentia o sabor da vida novamente. Agora sim vivia na claridade. Ganhou a batalha e reconheceu seu oponente. Perdoou-se

sexta-feira, fevereiro 01, 2008

O Piano




[Imagem em preto e branco]

Aquela presença me incomoda e seu som me perturba num misto indescritível de delírio e melancolia. Aquele som grave opondo-se ao agudo e concomitantemente fazendo ressoar a dor que eu não ousaria pronunciar, o sentimento que não ousaria sentir, o silêncio que não poderia suportar, o período que não conseguiria terminar.

Explodo de fúria, mas não chego perto. Deixo o piano falar, deixo o piano tecer as notas e construir a realidade da qual pertenço. Deixo o piano desenhar com sua melodia a harmonia do meu coração. Deixo o piano me ferir com o gravíssono de seu som e deixo-o levitar minh'alma com a derradeira nota inaudível.

É a profana madeira negra que me atrai. Não. É a atmosfera sagrada que me perpassa. Invade-me o dedilhar da sinfonia insuportavelmente encantadora. Vibras e és. Vibras as cordas, És o piano. Não devo deixar me levar pelo piano. Imploro por um sustenido ou bemol, imploro pela insólita fuga do ordinário. Imploro para que toda a perfeição do piano destrua minha fantasia, acabe com minha dependência. E assim, mesmo perto, me afaste do piano e fique num lugar onde minha visão não possa o alcançar.

Hoje dou-te de costas. E hoje sou orgulhoso àquelas desafinadas notas. Fecho meus olhos. Mas deixo meus ouvidos abertos.

sexta-feira, dezembro 14, 2007

Praias de Março


"São as águas de Março fechando o verão..."

Mais uma temporada se passou e Regina andava calmamente como se tivesse todo o tempo do mundo para percorrer cada centímetro do calçadão preto e branco-desbotado de Copacabana. Uma atmosfera de bossa nova, uma leveza incontrolável que a fazia lembrar de seus antigos amores frustrados enquanto passeava pela orla. Andava e ouvia as músicas de Tom Jobim em sua mente.

Observava as ondas como se fossem as primeiras de sua vida. Era como se elas levassem tudo e não trazessem nada de volta. Observava com os olhos semi-abertos para proteger-se do sol, proteger-se de enxergar o que vai alem de seu entendimento.

"Vou te contar o que os olhos já não podem ver, coisas que só o coração pode entender..."

Ela não queria entender. Regina só queria sentir. Sentir as águas geladas baterem em suas pernas, cobrirem seus pés que levemente afundam na areia quase movediça da praia.

Regina sentia que o mundo era dela e que, apesar de todas as desilusões, ainda estava viva e precisava cuidar de seu bem mais precioso. Regina pensava, andava, imaginava e se questionava. Uma nostalgia das bonecas e dos programas de tv que assistira quando criança pairava sobre seus pensamentos. Seu primeiro beijo, sua primeira noite de amor, sua primeira noite de solidão. Lembrava de seu riso mais estridente, seu choro mais comovente e seu olhar mais penetrante.

Ela era assim, olhava para o azul-infinito do céu e sentia o contraste no azul-misterioso do mar. Era um azul que a hipnotizava e a chamava, que cobria o fundo de seus olhos, e escuro. Escuro e indecifrável.

O sol a iluminar tudo ao seu redor e seu íntimo a se manifestar no paradoxo do praia: o dia tão quente que a obriga a entrar na água tão gelada. O corpo tão sedento por calor que buscava refúgio na frieza de seus sentimentos.

Regina adorava o Verão, mas não o Verão carioca de noventa e sete graus. Ela gostava do calor que produzia em seu coração e de observar o crescimento das coisas ao seu redor. No verão as pessoas são mais verdadeiras, são mais nuas, são mais transparentes mesmo em contato com o amargo gosto do sal colado no corpo.

Agora era o fim de uma temporada. O odor intrépido da mareisa embrulhava o estõmago externando tudo o que havia de podre dentro dela e anunciando que agora todo o mau-cheiro deveria dar lugar ao Outono queé a estação onde caem as pétalas e o orgulho da alma.

E naquela época, a brisa do mar trazia mais saudade. Saudade do outro e saudade de si mesma. Era a despedida de si mesma que só iria ser encontrada depois de um ano, depois que dominasse o fenômeno da Translação. É como se a vida primitiva e crua desse lugar à vida cotidiana e pós-moderna de sempre. Cansava-se, mas alegrava-se ao saber que ainda tinha o resto do dia pra percorrer o calçadão, tomar uma água de côco e bater palmas para o pôr-do-sol no Arpoador.
Resumira-se no gosto doce da nostalgia na boca e na vitalidade de curtir algumas horas da mais inocente solidão permeada pela mais refrescante saudade. Esta que refresca a alma e aquece a vida.

Sentou-se nos mini-paralelepípedos que fromavam com as cores preto-fosco e branco-acinzentado, ondas quase iguais as do mar, mas que estavam mais perto e queimavam com os raios ultra-violetas. Já o azul do mar era gelado e qualquer raio de calor seria impenetrável em suas gélidas águas, a não ser o poderoso calor humano.

Ao esperar a última chuva do verão para renovar e lavar seus sentimentos mais antigos, Regina seguia a calçada conhecendo e desvendando sua essência e sua maré...

"A promessa de vida pro meu coração..."

quinta-feira, dezembro 13, 2007

Eterno Amor




E mais um conto méla-cueca!!! [Com direito a final alternativo!!]

Preciso parar com o sentimentalismo!!

Trilhas sonoras recomendadas:

Joy Ride - Mariah Carey
Sem Ar - D'Black
Tears in heaven - Eric Clapton

* Só não ponho Endless Love porque iria parecer telemensagem...

Eterno Amor


“Amar-te é como sentir o paraíso”. Estava ali naquele quarto jovial. Janela aberta, brisa noturna, lua cheia e pensamentos felizes ao ler tal frase na capa de um álbum de fotos listrado. Letícia estava deitada na cama já de olhos fechados enquanto Lucas, ao seu lado, sentado numa cadeira azul-bebê acolchoada, contemplava o amor de sua vida. O corpo, o rosto, o cabelo, a boca...Cada traço de Letícia atraía Lucas. Da simples bochecha branquinha até os fartos seios de sua amada. Lembrou-se que tinha um ar adolescente e apaixonado toda vez que via Letícia nos corredores da faculdade. Fazia de tudo para aproximar-se dela, para conquistá-la. Sondava sua paquera, procurava razões e pretextos para esbarrar nela e trocar olhares. Apenas olhares. Sentir seu coração palpitar, sua boca secar, suas mãos suarem, seu corpo tremer. Até que um dia conseguiu. Conseguiu conhecer a pessoa que mudaria sua vida e mexeria com seus sentimentos mais íntimos de uma maneira que nunca tivera experimentado.

Um amigo em comum apresentara um ao outro numa festa. Sentaram na varanda perto de uma piscina e conversaram por horas. Descobriram que quase nada tinham em comum, mas por nada no mundo sairiam daquele lugar, daquela conversa, da vida um do outro. Sentiam-se como se já se conhecessem a anos, ou melhor de vidas passadas. Ele não poderia perder a oportunidade de lançar seu charme adolescente naquele momento tão especial. Lucas, galanteador e destemido, sem perder a doçura de um jovem, sugeriu que Letícia era em potencial sua alma gêmea. “Não acredito que eu estou aqui com você agora, olhando o céu estrelado e ouvindo sua doce voz. Já sonhei com isso antes” E Letícia encantada, mas não a ponto de se entregar, retruca “Nossa! Que coincidência!” E Lucas “Coincidência não. Destino” Letícia se fazendo de difícil, indaga “Será?” E Lucas responde “Certeza. O destino nos quis aqui. Quis que nos encontrássemos. Aceite menina. O destino nos escolheu”. Um minuto de silêncio diante dos dois e antes de levantar-se, Letícia finaliza “Não é porque o destino nos uniu que garante que ele tenha acertado”.Lucas não sabia distinguir seus sentimentos perante aquela situação. Era um misto de perplexidade e encantamento. Estava certo de que Letícia seria a mulher da sua vida. Letícia tinha um olhar doce e desafiador ao mesmo tempo e Lucas não conseguia resistir. Por mais que tentasse, Letícia era o tema de todos os seus pensamentos. Sentia que tinha algo de misterioso, de oculto, de único naquela jovem menina. Estava disposto a descobrir, a participar, a apoiá-la e a amá-la.

Daí por diante foram só investidas. Lucas cercava Letícia em todos os cantos da faculdade. Até passou a ler um pouco mais sobre História da Arte para impressioná-la. E ela fingia que não percebia o esforço que ele fazia para conquistá-la, mas no fundo, adorava toda aquela situação, porém sabia que não era o mais certo a fazer. Seu coração estava fechado pra balanço. Ninguém soubera de nenhuma decepção amorosa ou algo que a fizesse ter o coração fechado tão jovem. Mas Letícia não era uma moça amargurada e recalcada. Muito pelo contrário, ela era feliz e se sentia feliz e por mais que parecesse frágil, não tinha medo de se apaixonar
....

Lucas sempre foi um apaixonado. Pela vida, pelos amigos, pela família, pela simplicidade, por gestos e até pela matemática. Matemática do amor. Era um rapaz nobre, gentil e carinhoso. Demonstrava todos os seus sentimentos com intensidade e vida. Não era desses que tinham medo de tudo, do que os outros pensariam, das conseqüências de seus atos. Sempre brincalhão e de bem com a vida, ele conseguia tudo o que queria com honestidade e gentileza. Um sonho de menino. Conversava com os idosos e com as crianças; e de vez em quando era surpreendido conversando com animais e até plantas. Apaixonava-se fácil demais, mas não pela pessoa mais fácil. Gostava de dedicar-se exclusivamente a uma única pessoa, a uma única paixão. Foi aí que encontrara Letícia.

Letícia se parecia muito com Lucas. Era intensa e concentrada em tudo o que fazia. Apesar de alguns problemas de saúde até mesmo hereditários, era completamente apaixonada pela vida. Tinha um ar misterioso e jovial. Parecia uma princesinha num corpo de mulher. Sempre reparara em Lucas na faculdade, mas era tímida demais pra demonstrar o que sentia. Certa vez, pedira até para um amigo em comum convidar os dois para uma festa e apresentar um ao outro. Quando o conheceu ficou radiante e confirmou todas as coisas boas e apaixonantes que sempre pensara sobre ele. Lucas era mais encantador do que ela esperava. Resolveu se fazer de difícil, mas daí para um romance era só questão de tempo.

Lucas mandava flores, bombons e declarações de amor mesmo sem estar namorando Letícia, que decidiu, depois de um mês, não fazer mais jogo duro e assumir sua paixão pelo lindo rapaz. Então foi assim, declamando um poema de Vinícius de Moraes em pleno auditório da faculdade que Letícia se declarou para Lucas. Os olhos dele brilhavam de felicidade. Era o amor transbordando. A partir daquele momento, sentia que sua vida finalmente tinha encontrado um amor verdadeiro. E ela, mesmo vermelha de vergonha, percebeu o quanto Lucas completava sua vida e a deixava mais colorida do que seus trabalhos de Arte. Era um amor regado à felicidade e paixão. Harmonia e emoção. Um amor cheio de cor e transformação.

Lucas passava a maior parte de seu tempo com Letícia. Chegou até a pedi-la em casamento. Mas não passava de uma brincadeira, mais uma de suas brincadeiras que deixavam Letícia ainda mais apaixonada. Lucas freqüentava sua casa e passavam horas em seu quarto jovial. Todo rosa e cheio de gravuras e pinturas, Letícia se sentia aceita toda vez que recebia um elogio de Lucas, mesmo sabendo que Lucas a amava mais do que devia e mesmo sabendo que ele não entendia quase nada sobre artes e decoração.

Todas as noites, Lucas invadia o quarto dela pela janela escondido dos pais e ficava horas olhando para sua bela adormecida. Ouvia sua respiração, suspirava em seu ouvido, deslizava levemente sua mãe no rosto alvo e macio de Letícia, cobria seus pés em noites frias até também adormecer na cadeira acolchoada que Letícia deixava ao seu lado sabendo que ele viria na noite seguinte. Era um ritual lindo e amoroso. O Romeu observando sua Julieta adormecer.

E o amor dos dois só ia crescendo mais e mais. E numa dessas noites, Lucas não estava mais tão feliz quanto antes, mas resolveu ir até o quarto de sua “Julieta”. Entrou pela janela e analisava cada canto do quarto jovial. Sentou-se na cadeira azul-bebê acolchoada e tinha pensamentos felizes. Rosto pálido, mas pensamentos felizes. Parou de lembrar-se de toda sua trajetória com Letícia. Olhou para o quarto rosa, para um desenho de um coração com duas letras “L” no centro. “Lucas e Letícia”, pensou. Contemplava Letícia deitada, pois tudo nela o atraía. Lágrimas caíam de seu rosto, mas não pronunciava uma única palavra. Mais uma vez era o amor transbordando, mas dessa vez, transbordava porque não tinha lugar pra ficar. O coração não suportava tanto amor. Ele achou melhor devolver todo o amor que grandemente guardava. Sentia-se desmoronado, destruído. Olhou em baixo da cama, pois sabia que tinha uma caixa com um lindo álbum de fotos listrado com retratos dos dois. Riu. Letícia adorava tirar fotos. Sorriu. Ouvia o silêncio do quarto. O silêncio entre os dois. Tão pertos, mas tão calados. E, com os olhos marejados e cheios de lágrimas, beijou o rosto gelado de sua amada. Entendeu que amou o suficiente, e amou demais. Apesar de não se conformar com a crise de asma que levou sua namorada a morte dentro de sua própria casa, dentro de seu quarto, no próprio ninho de amor, sabia que precisava seguir em frente.

A agência funerária chegou para tirar o corpo do quarto e ele seguiu seu rumo. Jamais amará outra pessoa da mesma forma que depositou todo seu amor em Letícia. Jamais esquecerá Letícia...”Amar-te é como sentir o paraíso”. Ele talvez não soubesse realmente o que aquilo significava, mas tinha certeza de que a partir daquele momento Letícia saberia
....

Final alternativo

E o amor dos dois só ia crescendo mais e mais. E numa dessas noites, Lucas não estava mais tão feliz quanto antes, mas resolveu ir até o quarto de sua “Julieta”. Entrou pela janela e analisava cada canto do quarto jovial. Sentou-se na cadeira azul-bebê acolchoada e tinha pensamentos felizes. Parou de lembrar-se de toda sua trajetória com Letícia. Olhou para o quarto rosa, para um desenho de um coração com duas letras “L” no centro. “Lucas e Letícia”, pensou. Contemplava Letícia deitada, pois tudo nela o atraía. Lágrimas caíam de seu rosto, mas não pronunciava uma única palavra. Mais uma vez era o amor transbordando, mas dessa vez, transbordava porque não tinha lugar pra ficar. O coração não suportava tanto amor. Ele achou melhor devolver todo o amor que grandemente guardava. Sentia-se desmoronado, destruído. Olhou em baixo da cama, pois sabia que tinha uma caixa com um álbum de fotos listrado com retratos dos dois. Riu. Letícia adorava tirar fotos. Sorriu. Ouvia o silêncio do quarto. O silêncio entre os dois. Tão pertos, mas tão calados. Letícia então, acordou. Não conseguia dormir. Olhou em baixo da cama, pois sabia que tinha um álbum de fotos. Viu as fotos. Riu. Lucas adorava tirar fotos. Chorou. Caiu em prantos de repente, pois se lembrou do trágico acidente que marcara sua vida e ferira seu coração para sempre. Não entendia como em apenas um segundo sua vida pudesse mudar totalmente. Como um acidente tão trágico pudesse acontecer assim. Mas o que mais doía era saber que Lucas teve uma batida de carro quando estava indo à sua casa, ao seu quarto. Ao ninho de amor. Leu a frase que ela própria escrevera na capa de seu álbum: “Amar-te é como sentir o paraíso”.Sentia-se num inferno, mas sabia que Lucas estava no paraíso e que enfim sabia como é o real sabor do amor. Amor que ele sentia por ela.

Tomou dois comprimidos e deitou-se. Sabia que não deveria deixar ninguém se apaixonar por ela. Lucas presenciara tudo e confortava Letícia com sua presença sobrenatural. Beijou o seu rosto, e assim, sua alma foi liberta. Letícia sonhara com Lucas todas as noites desde então. Sentia-o presente mesmo não sabendo explicar...

sexta-feira, setembro 07, 2007

Primeiro Encontro


E aqui nessa lanchonete onde nunca estive antes, sento-me à sua frente. E posso olhar nos seus olhos, desenhar seus traços, sentir seu hálito, perceber às sombras de sua face quando a clara e imponente luz do sol abre a cortina de escuridão que envolve seu rosto, ou que envolve meus olhos. Não sei se o que vejo em você é o que você realmente é ou se és o produto embaçado dos meus olhos que refletem as remotas lembranças da minha mente.


Sei que mesmo com você aqui tão perto, representando um novo amor, uma nova atitude de vida, uma nova visão de sentimentos, não consigo parar de pensar no ultrajado e velho amor que estivera acostumado e submetido por anos. Nossos sentimentos e nossos corpos conversando da maneira mais inocente, buscando e reconhecendo o olhar do outro na esperança de que essa interação sempre se repita, abrem espaço para minhas lembranças obsoletas, para minhas sensações já experenciadas.


E, mesmo com você perto de mim não consigo esquecer aquela, não consigo me desvencilhar de cenas de amores anteriores. E, ao abrir a boca pra votar na nossa música-tema de casal recém-apaixonado, é inevitável não recordar. Meu momento déja vu é embalado pela música do Djavan. déja avant. E assim tenho certeza de que "é doce morrer nesse mar de lembrar e nunca esquecer" e que "mesmo com toda riqueza dos sheiks árabes, não te esquecerei um dia. Nem um dia"


Sorrio. Mas não pra você. Você quer passar a tarde toda cantarolando Djavan e eu não te impeço porque ainda quero me lembrar do amor que já vivi antes de você. Mas que um dia vai passar quando esses nossos encontros se repetirem e quando meu olhar estiver disposto a te decifrar e, então, entenderás que, no silêncio, você verdadeiramente determina o som que embala nosso amor.

quarta-feira, julho 18, 2007

Limpeza


"Preciso eliminar o lodo que há dentro de mim! Que transborda em meu coração em forma de pétalas de rosa vermelha. O amor que eu sentia já não estava mais ali. A lágrima que caíra, era reflexo do que nunca senti. Buscava a libertação, de ti, de mim mesma, do amor. Ao mesmo tempo que corria em busca do amor, tornava-me mais longe dele. Tropecei nos enganos, nas mentiras, porém foi a verdade que me fez cair. As certezas me assustam, o medo é confiável!

Aquela camada de lodo ia aumentando e me tomando por dentro até me sentir sufocada, afogada, morta. A vida era uma casca, uma cápsula, um retrato, uma porta onde o amor bate, mas não entra. O amor não é capaz de limpar o lodo, só a água, só a água, só a água.

E a angústia ia me sufocando até eu acordar sozinha numa cama de casal, na minha casa, só. A solidão é minha única companheira. A companheira mais infiel. Espantada, olhava o lindo jardim pela janela, tão lindo, tão simples. Queria que minha vida fosse assim. Queria que amar fosse assim. Fui tomar banho gelado para não pensar em meus sentimentos e fui acreditando que a água ia curar esse tormento, esse amor. Ou então, ia me ensinar a amar e nunca mais sofrer.

Tola sou eu! A água apenas alivia. Não liberta, não redime!"

domingo, abril 29, 2007

Um dia frio, um bom lugar pra ver um filme


Saiu na chuva. Dobrou a esquina. Frio. Arrepio. Locadora vazia. A escuridão e a falta de transeuntes pelo asfalto batido na frente de sua casa remetia à sua falta de vida e a deixava nervosa, mas dava um ar de felicidade. Felicidade não. Tranquilidade é melhor. Nunca soubera o que era ser feliz. Escolhe filmes de terror. Seus olhos não percorrem a sessão de românticos. O que os olhos não vêem, o coração não sente.

Filmes de ação são para homens e filmes água-com-açúcar são para damas indefesas. Como queria ser uma dama indefesa... "Pára, Renata. Pense em si mesma. Controle-se para não sofrer mais." Chuva caindo, gotas geladas escorrendo por seus cabelos negros e molhados. A pele áspera e alma rígida. Sentia-se como um dos encartes dos filmes da pequena locadora. Filmes da sessão de terror. Os mesmos que ela escolhera

Decidira por fimes europeus, era mais chique. Passaria um feriado intelectual. Mas já tinha visto todos os europeus da locadora. Supremacia americana. Não teve para onde correr. E lá estava ela, em frente ao seu maior medo: a sessão de românticos. Eram todos muito lindos e felizes nos posters. "Come on, Renata, é apenas ficção". Não para ela. Tentava correr, mas percebera que o singelo rapaz da locadora olhava para ela na expectativa de que ela escolhesse logo o filme. Pegou o pirmeiro filme que viu. Droga. Romântico. Pagou. Obrigado. De nada, senhorita. Foi pra casa na chuva disposta a entregar o filme sem vê-lo!

O frio se intensificava e o sono não vinha. Deixou o chocolate quente em cima da mesa e foi até o DVD. Depois de 5 minutos colocou o filme para ver. Após 90 minutos, em meio às lágrimas, surge um sorriso. Agora sim de felicidade.

Pois é... Hollywood deixara resquícios de felicidade!!

sábado, abril 28, 2007

Ódio


Rua escura. Bar à frente. Bêbados figurantes. Taxi Driver. Abre as portas do veículo amarelo-ovo e dirige-se ao recinto degradável. Obesidade mórbida de cabelos escassos e branco-acinzentados a ingerir líquido amarelo-mijo portando um canudinho. Rosto conhecido. Nojo. Repulsa. Raiva. Ódio. Missão. Quem seria tal abominável ser que me desconcentrara em minha arte de chutar chapinhas pela escuridão da madrugada? Por que construo sentenças tão longas? Porque longa é a duração do meu rancor.

Mendigos nas ruas. Luzes apagadas. Jukebox alta. Homem grande de canudinho. Recipiente com borbulhas. Líquido gelado. Sangue quente. Bolso cheio. Cheiro de aço. Metal no bolso. Calçada do bar. Olhar do homem. Meu olhar. Revólver no bolso. Arma na mão. Não é um duelo. Barulho. Estrnodo. Copo quebrado no chão. Líquido amarelo sem borbulhas a escorrer pelo ralo. Canudinho sujo aos meus pés.

quinta-feira, abril 05, 2007

Conto - Coração Alerta




Ae, Galera!!

Mais um conto de minha autoria...Dessa vez, bem diferente do "À Flor da Pele", porém o mesmo tema : o amor!!

Trilhas Sonoras recomendadas:
Começo, meio e fim - Roupa Nova
Sem Ar - D'Black
Eu sei - Papas na Língua

Coração Alerta

Gisele queria se apaixonar novamente para dar sentido à sua vida. E entrou de cabeça ao identificar em Zurawsky uma espécie de salvador que poderia simplesmente ter chegado de canoa com uma bóia na mão, no mar aberto em que estava sua vida, quando ela, já sem forças, acreditava que iria se afogar. Não podia aceitar que algo bom demais acabasse daquela forma, mas precisava ser prática e entender que aquela sociedade, que denominara amor, havia terminado. “Existe vida após amar demais?”, pensou, já de maiô, diante do abismo, em frente a um mar agitado, que parecia espancar as pedras. “Sim, existe!”. E se atirou.
...

Sentada na cozinha de casa, olhando para as paredes de azulejo branco, Gisele sentia-se vazia e chorava muito. Aos prantos, cortava cebolas para parecer que seu choro era apenas biológico e não envolvia sentimentos, mas não conseguia enganar nem a si mesma. Por impulso, resolveu que sairia daquela tortura. Suas lágrimas grossas incontroláveis contrastavam com a linda decoração dos azulejos de sua cozinha. Empurrou a mesa e quis sumir dali.

Era outra mulher. Vestida para matar. Aquela moça toda recatada e comportada usava agora maquiagem de travesti, usava espartilho e minissaia. Gisele se tornara uma predadora. Decidida e independente. Mas no fundo era apenas uma mulher traumatizada, dessas que tem um ar felino e mostram as garras disposta a atacar, mas que em determinado momento de piedade, diminui as garras e deixa a presa ir embora. Assumia uma postura baixa, fazia e dizia o que desse na telha. Mulher impulsiva cansada de toda a sofisticação que forjara para si mesma. Agora mostrava o que achava que era sua verdade e sua personalidade. Definitivamente, não merecia tudo o que Pedro tinha feito.
...

Pedro ouvia rock progressivo no último volume em seu mp3 dado por Gisele devido à sua paixão por música. Três anos mais novo que Gisele, Pedro era muito imaturo e infantil. Nada mais era do que um menino mimado que passava horas no banheiro passando gel no cabelo e idolatrando seu penteado moicano que fazia sucesso com as garotas. Pelo menos, fez sucesso com aquela que no futuro, seria sua esposa. Entrou no ônibus. Encontrou um amigo e os dois conversaram banalidades. Nunca saíra nada inteligente da cabeça loira de Pedro. Adorava brincar com os passageiros que por sua vez, adoravam zombar da aparência grunge e moderninha do rapaz. E, como não agüentava zuação, encolhia-se sem graça em seu banco desconfortável. Tinha tudo para ser um bad boy em seu bad-day-hair, mas Pedro era feliz, pois tinha a aparência que pedira a Deus. Estilo. E nada mais importava.
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Eram lindos e jovens. Sabiam que tinham uma vida inteira pela frente. Gisele pegou no pé de seu amado, pois chegara atrasado para a feira literária onde ela iria expor seus poemas de amor. “Onde você estava, Zé Gotinha?” Perguntava ela rindo e zombando do cabelo de seu amado. “Engarrafamento terrível!” Respondia ele. “Sei...sei...” desacreditava ela. Pedro odiava poemas. O que para Gisele era uma livre expressão de sentimentos mais íntimos do ser humano, para Pedro eram apenas fragilidades remexidas em versos abstratos que ninguém entendia. E quando se propunha a entender, falava um monte de bobagens que ela educadamente fingia concordar.

Pior do que ele, eram suas concorrentes de tenda. Sabiam que Gisele era boa no que fazia e por isso despertava inveja nas outras estagiárias que nada tinham a acrescentar naquela exposição. Gisele tinha um currículo invejável. Havia escrito um livro aos 17 anos e seu sonho era ir ao programa do Jô Soares. Um dia realizaria. Enquanto isso, as outras poetisas-múmia entortavam o nariz e reclamavam: “A mesa não é só pra você, queridinha, trate de diminuir isto”. Justo ela que, tímida, escolhera um espaço irrisório, enquanto as outras disponibilizavam exemplares de forma que ocuparam muito mais espaço e ninguém reclamara. Gisele e Pedro: amigos naquela época que já se entendiam com o olhar. Ambos odiavam as pessoas pelo tom de voz: se a pessoa falava muito grosso, concluíam que não prestava; se falava pausadamente ou muito suave, como aquela mulher, era falsa. E quase nunca se enganavam. Depois da grosseria, Gisele, sem dizer uma palavra, recolheu os livros e foi embora sem dar explicações.

Correram livres, segurando, cada um, a aba da sacola que carregava os livros. Pedro de jeans desbotado, camisa listrada, tênis grandes, brinco na orelha esquerda, pulseiras e fone de ouvido. Gisele de vestidinho florido e sapatinho vermelho combinando com a armação de seus óculos. Já saindo da feira, ela parou diante da feira e desferiu o dedo do foda-se para o evento. Depois, passara a tarde ao lado de Pedro e só não viram o pôr-do-sol porque ele teve de buscar sua namorada para sair à noite. Sim, Pedro tinha uma namorada e atrasou-se por causa de Gisele. Ela estava feliz por descobrir que ele a amava, mas ainda não sabia. E, cedo ou tarde, seria dela.
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Andava devagar de propósito, não sabia porquê, mas não queria voltar para casa. Tentaria retardar o quanto pudesse. Sua cabeça doía. Tinha uma ferida e umas gotinhas de sangue desciam discretamente de sua cabeça. Não queria lembrar o que causara aquilo, pois doía mais no coração do que na cabeça. Pedro entrou em um boteco e comprou uma garrafa de refrigerante. A cada gole, tentava se convencer de que era uma dose de felicidade, uma injeção de ânimo. Era muita pretensão tentar ser feliz. O que queria mesmo era sair daquele estágio de tristeza e voltar à normalidade. “Ahhh”, refrescou-se com o líquido, que descia gelado pela garganta. E sentiu prazer em ser mal-educado, e arrotar enquanto passava no meio de duas senhoras.
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Enquanto fitava, com olhar matador, o garçom que paquerava há algum tempo, Gisele bebeu o capuccino de uma tacada só e, tal qual a gata selvagem que precisava ser, passou a língua nos lábios para tentar ser provocante e limpar o bigode que a bebida deixara. “Estupendo!”, exclamou, maliciosa, ao deixar uma nota em cima da mesa e sair decidida, sem esperar pelo troco. Vitoriosa, mas envergonhada, pois algo dentro dela dizia que aquela “femme fatale” não era realmente ela. Resolveu ir ao dentista.
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Pedro se descobriu apaixonado por Gisele quando fumavam um baseado embaixo da cama dela, enquanto seus pais trabalhavam. O intuito dela era atiçar, mas não beijar por maldade. Só que não agüentou estar frente a frente com o hálito de quem amava e resistir. Ela fingiu que não queria, mas ele esmagou sua boca com força até que ela cedesse. Achou que estava irremediavelmente apaixonado e realmente estava. Eram o casal perfeito, daqueles de encher os olhos e causar inveja aos admiradores do gênero comédia romântica americana. Abandonara um namoro de quase dois anos para ficar com Gisele. Descolados, antenados e cruéis, não poupavam ninguém. De quantos gays estavam na fila do cinema à vestimenta da adolescente de chapinha no cabelo que mascava chiclete e mais parecia estar ali para fazer programas do que para esperar o namorado na porta do banheiro do shopping. Eram sarcásticos, mas nem por isso, menos divertidos. Eram feitos um para o outro, pena que não sabiam que toda essa suposta felicidade infinita estava a ponto de acabar.
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No consultório, passou a tecer comentários espirituosos sobre a teoria do caos, e se sentiu a rainha da cultura inútil. Tudo para impressionar o dentista, e provar, a si mesma, que era capaz de conquistar alguém. Só que se esqueceu de um pequeno detalhe: considerava a situação mais humilhante do mundo a de ficar de boca aberta diante de um dentista. Sentia-se vulnerável, principalmente se levasse a sério sua opinião de que a maioria dos médicos e dentistas são atraentes. O dentista, para descontrair, brincava e fazia perguntinhas as quais ela, se pudesse escolher, preferiria estar sepultada a responder, com aquela voz de bêbada de uma pessoa anestesiada. Só que, quando ele, com a mão enluvada, colocou o dedo em sua boca escancarada, sentiu uma imensa vontade de sugar aquele dedo grosso. Estava excitada. Ele nem era tão bonito assim, já passara dos quarenta –como denunciavam os fios brancos em seu cabelo–, exibia uma aliança grossa na mão esquerda e, o pior, só cumpria seu trabalho. Continuaria então, sem uma aventura de amor. E sem sexo.
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Sim, quando disse que não a queria mais após tê-la desvirginado na lua de mel, Pedro não quisera ser mau caráter, só estava sendo sincero. E percebeu naquela hora que queria ser livre. Nada contra Gisele, mas era jovem demais para ter uma vida a dois. Ele, que dizia ser louco por ela, havia decepcionado a todos, inclusive a si mesmo. Não teria como anular o casamento, já que o ato sexual havia se consumado. A princípio, Gisele achou que se tratava de uma brincadeira e, só percebeu a gravidade, quando Pedro pegou as malas e jogou suas roupas de qualquer jeito. Justo ele, que havia prometido não magoá-la. Gisele sabia que ninguém pode garantir que nunca vai machucar outra pessoa, mas fez questão de esquecer porque queria acreditar no amor de sua vida. Sim, Gisele nunca se amou, só a Pedro. E agora ele saía de sua vida, apressado, e tropeçando no próprio cadarço sem se despedir. Da próxima vez, jurou a si mesma que se envolveria com um saci pererê. Pelo menos, se levasse outro pé no traseiro, faria questão de assistir ao tombo.

A vida de Gisele se dividia em antes, durante e depois de Pedro. Antes eram só sonhos e desejos de encontrar o príncipe encantado. Sentimentos suaves e gestos moderados a procura desse amor. E quando aquele que ela achava que seria seu príncipe chegou, quis bancar a princesinha sem passado e depositar todas as suas fichas em sua volúvel paixão cegada pela afobação de um falso sentimento. Seu trauma era perdê-lo. Mas o problema não era da princesa, mas sim do príncipe. Gisele se julgava esperta demais. Atiçava Pedro, mostrava o que sentia. Era pós-graduada na escola da vida, mas seu príncipe era apenas um jovem sedutor disposto a amar. Não tinha nem cavalo branco. Não conhecia o amor de verdade, mas Gisele fez com que ele acreditasse que ela poderia ser o amor de verdade de qualquer um. E foi assim até perdê-lo na noite de núpcias.

Fazia pose de vítima sem saber ao certo se era mesmo a desfavorecida e confusa da relação. Extremamente magoada, passava tudo para um papel na idéia romântica de ser descoberta após sua morte. Talvez isso desse sentido a sua vida. E tinha Isabelle, sua melhor amiga, que se propunha a ler seus sentimentos psicografados em caneta de tinta prateada num papel que mais tarde passariam para a frieza do Times New Romam nas caixas de e-mail. Era uma mulher ferida, uma avalanche de sentimentos contraditórios e incontroláveis.
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“Gisa, a ficha caiu. Desculpe-me, não quero isso pra mim”. Gisele paralisada com a lingerie cor de vinho presenteada pelo amado e batom borrado de tórridos beijos, olhou para Pedro num misto de descrença e pavor. Soltou uma risadinha nervosa e disse: “Pedro, isso são horas pra brincar desse jeito?”. Não era brincadeira. Pedro com um olhar assustado reafirmava que era jovem e que não podia mais se envolver. “Estou sendo sincero com você, Gisa”. Pedro se deparara com uma mulher seminua e transtornada em sua frente que lhe atirou um gatinho de madeira que fazia parte da decoração da casa de praia. O gatinho acertou em cheio na cabeça dele, mas ele nem se importava. Queria mesmo era sair dali. E já ia saindo, com um galo na cabeça. Gisele sentiu-se culpada e num misto de piedade e paixão, foi acolher seu marido para ver se ele tinha se ferido. Obsessão. Pedro esquivou-se dela e correu porta do quarto a fora. Gisele jogada no chão implorava para que ele não a abandonasse. Em vão. Chorava, chorava e chorava. Lágrimas grossas. Foi o primeiro passo de sua degradação como mulher. Ouviu quando, esquecendo de amarrar o cadarço, Pedro caiu escada abaixo. Pensou em rir, mas não conseguia. Gisele nunca se amara. Só soube o que era amor de verdade quando o conheceu. Ele, nem isso.
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As pessoas reagem de diversas maneiras a uma decepção. Umas se tornam suicidas, outras são só lamentações e outras são fortes adeptas do lema: Decepção não mata, ensina a viver. E nesse quadro, Pedro achava que se encontrava, mas, do seu ponto de vista, Gisele tinha mesmo se tornado uma “piranha”. Não se culpava de nada. Tinha sido franco e tinha consideração por ela. Consideração não é amor. Sentia que se levasse a mentira adiante, se tornaria um canalha, um mau caráter. E isso jamais. Já em casa, comendo pizza, bebendo pepsi com cachaça e assistindo a um programa de comédia sem ao menos soltar uma risada, a campainha tocou. Não queria atender e sua única companhia era seu cachorro Jimmy Hendrix. O cachorro não poderia atender, claro. Então, levantou-se, escondeu os restos de pizza e roupa suja espalhadas pela casa a fim de que o visitante inesperado não sentisse pena nem repulsa pela sua casa que nada mais era do que um reflexo de sua vida e seus sentimentos: uma bagunça. Abriu a porta e deparou-se com senhoras pseudo-simpáticas. “Testemunhas de Jeová”. “Foda-se”. Antes de fechar porta, percebeu que Jimmy Hendrix havia fugido. Soltou um palavrão para as idosas assustadas com a hostilidade do jovem rapaz e saiu para procurar seu cão temendo que fosse roubado por ser de raça. Mesmo sem saber qual era a raça. Assim era Pedro. Não se dava conta das coisas que o rodeavam, das pessoas que o rodeavam, dos sentimentos que o rodeavam. Chorou feito criança.
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Resolveu que ia ter uma história de amor com o dentista. Acreditou no seu poder de sedução e na sua nova fase (de um eufemismo peculiar): mulher volúvel, e ligou para o dentista. Mandou flores apesar de ter se sentindo envergonhada por isso e marcou encontro com ele na praia. A mesma praia em frente a sua casa onde passara sua inesquecível noite de núpcias. Gisele estava provocante, de vestido preto meio transparente, sentada no balanço onde ela empurrava levemente seu amor à espera da chegada do pôr-do-sol. Queria que desse certo agora. Queria que seu encontro fosse perfeito. Ignorava o fato de que com toda a ventania da praia seu penteado pudesse se desfazer. Olhou mais uma vez o cartãozinho do consultório para não esquecer o nome do dentista.

Arnaldo era já um homem maduro. E, embora tivesse prometido a seus estagiários e sua secretária que não seria capaz de trair sua mulher e que nem pensava em ir ao encontro, ele foi. Confessou que cartõezinhos de duplo sentido eram o que o atraíam e por isso, suas promessas viraram ao avesso.

Quando Arnaldo chegou sem aquele jaleco branco, deixara de ser um grisalho charmoso e se tornara um velho de 80 anos. Gisele sentia-se patética e não parava de olhar pro colete de lã azul marinho de seu novo par. Ria por dentro. Risadas gostosas mesclando com aquela paisagem linda. Déja vu. Era de Pedro que ela se lembrava. Seus pensamentos eram involuntários. Resolveu aceitar o pedido do dentista para jantar. Queria sair dali, pois estava decepcionada ao constatar que não era indiferente ao local que passara os finais de tarde com seu ex-marido.

O jantar estava perfeito e Arnaldo era agradabilíssimo. O problema era com ela mesmo. Dispersa, impaciente e grossa. Fazendo o dentista passar vergonha e ficar acuado. Estava um pouco bêbada. Cuspiu vinho e falou bobagens. Gisele não queria estar ali com Arnaldo e sim com Pedro. E, enquanto degustavam a lagosta, começou a sentir coceiras e ficar vermelha. Era alérgica, mas não sabia. Correu para o banheiro e chorou desesperadamente. Molhava os braços e o rosto sem perceber que molhava todo o seu vestido. Para que foi inventar de comer lagosta? Apenas para mostrar sofisticação? Nunca fôra sofisticada quando estava com Pedro, mas agora queria se tornar outra pessoa. Queria apagar todo o resquício de sentimento e de convívio com Pedro. Jogou-se no chão do banheiro. A gerência estava a par do que estava acontecendo e, Arnaldo, constrangido, teve que acompanhar Gisele com o vestido pingando pelo restaurante sendo carregada por garçons, pois por causa da coceira, não conseguia nem andar. Seu vestido que era um pouco transparente estava encharcado e, mais uma vez, ela sentia-se uma idiota. Vinha na lembrança aquela cena em que também estava seminua quando quem ela mais amava detonou sua vida. Desmaiou.

Gisele acordou já medicada no hospital. Pediu desculpas e estava totalmente envergonhada. Arnaldo, um gentleman, a levou para casa sem dizer uma única palavra. Ele nunca mais tentaria cometer adultério e ela nunca mais voltaria ao consultório dele. Chegou em casa cansada e resolveu agir por impulso. Ligou para Pedro e disse que iria se matar, mas caiu na caixa postal. Não era chantagem. Não tinha nada a perder. Sempre fora exagerada. Enquanto esperava uma posição de seu ex-marido para saber como ele se sentiria com a bomba que ela acabara de lançar sobre a responsabilidade dele, entrou no “Messenger” e foi falar com uma amiga. E obteve a sincera resposta: “Gisa, você é egocêntrica porque:

1)sufoca

2)sabe que é complicada, mas diz que vale todo o trabalho que dá
3)tenta conquistar um homem só para se sentir desejada
4)quando consegue sair com ele, não o suporta mais
5)ameaça se matar sem se importar com quem a ama de verdade, só para se livrar da dor
6)vai ficar com raiva do que escrevi, mas é pura verdade (risos)...!!!”.

Embora não admitisse nem para si, Gisele concordava com a amiga, mas não queria acreditar em tudo o que acabara de ler a seu respeito. Agora, sentia vergonha. Não saberia como olhar para Pedro depois daquele vexame e de uma série de trapalhadas que fez, porque acreditava lutar por ele, sem pensar que nunca perdemos o que nos é de verdade, principalmente quando se trata de sentimentos.

Estava arrependida, principalmente depois de ter conhecido Zurawsky. Achava engraçada a maneira como fôra patética: era muito vaidosa para se matar; ainda mais da forma trágica que tinha planejado. E, afinal das contas, amores sempre vêm e vão como aves de verão, outono, inverno e primavera.
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Vida recomeçada, voltou ao trabalho do qual, meses anteriores, quase fôra despedida por conta da depressão que se instalara nela. Aparentemente estava linda e simpaticíssima como naturalmente era, mas no fundo ainda não estava totalmente recuperada. Estava num hotel e passaria um final de semana lá. Sua chefe mau-humorada, que prendia o porteiro a algemas em seu escritório para satisfazer suas fantasias sadomasoquistas, pedira a Gisele que fosse cobrir um congresso internacional de Ciências Moleculares na grande São Paulo e como não podia recusar, ela foi ao congresso, mesmo não gostando de servir como imprensa. Por que escolhera a profissão de Jornalismo? Assim não teria que servir como Relações Públicas e nem aturar Pedro em suas aulas de Roteiros de Cinema, porém, sabia que seu prestígio profissional estava decaindo e não hesitou em abrir um sorriso de aceitação para sua chefe que não retribuiu o sorriso.

No hotel em que a hospedava e abrigava o evento, procurava a figura de Pedro por todos os lugares e traços de centenas de homens que se encontravam naquele internato de Biologia. De repente, como algo sobrenatural, bateu os olhos em Zurawsky. Encantou-se na hora. Encantamento à primeira vista. Amor não. Não se sentia preparada para amar e andava meio desacreditada nesse sentimento. Mas, por um segundo, queria ao menos conhecer o homem capaz de fazê-la instantaneamente esquecer de seu ex-marido. Queria saber quem era o homem que fez despertar nela um sentimento súbito e estranho. Estranho pra melhor, claro. Decidiu que teria que conhecê-lo. Aproximou-se e perguntou seu nome. Afinal, o que tinha a perder? E, era da imprensa, logo, pretextos para puxar assunto não faltavam. Apaixonou-se pela simplicidade da resposta: “Zurawsky Schwartz”. Gisele arregalou os olhos sem entender. E ele logo explicou. “Não se espante. Nem eu sei a origem desse nome. Não tenho nem certeza de como se pronuncia isso”. Leve risada de ambos e Gisele falou: “Nossa. E que tipo de nome é esse? Grego?”. Leve risada novamente. “Acredito que seja polonês ou russo. Mas de qualquer forma, nasci na Suíça e moro em Cuba”. Mais risada. “Então, senhor mapa-múndi, prazer!”. E Zurawsky retificou: “Prazer não. Satisfação. O prazer vem depois” Risada acentuada. Gisele não perdeu tempo e disse “Prazer, então”. Zurawsky ficou surpreendido, mas não menos encantado. Ficou sem palavras. Nunca esperaria uma resposta daquelas. E, ela completou: “O gato comeu sua língua? Ou suas línguas?”.E, finalizando, Zurawsky disse: “Não se preocupe, se ele comeu uma língua, ainda me sobraram algumas. Se preciso, falo até mandarim, mas não deixo de me comunicar com você”.

A conversa foi se estendendo e conversaram sobre tudo. De gostos musicais à visão política. Gisele era fã de Elis Regina e Zurawsky só ouvia hinos de países. Ela o achou brega e estranho e ele a achou preconceituosa, mas os dois estavam adorando um ao outro. Depois ele disse que a história dos hinos era mentira e que ele tocava saxofone numa banda de jazz. Os dois riram muito. Gisele apreciava um homem que a fazia rir e isso era um ponto forte de Pedro, mas sem saber o motivo ela não pensara em Pedro durante a conversa toda. Estava totalmente envolvida com seu novo e exótico amor. Zurawsky fazia a linha “pré-coroa bem-sucedido” Regulava entre 38 e 40, médico infectologista, muito branco, esbelto, cabelos loiros e pêlos de barba prestes a nascer, mas que nunca nasciam. Era a contradição em pessoa, pois andava em ternos de grife e defendia idéias de Che Guevara. Sem contar nos seus discursos contra exploração do proletariado baseados em algum desses filósofos revolucionários que defendiam também os negros. Morava em Cuba por considerar a Suíça sofisticada demais para conseguir viver lá sem se sentir culpado.Gisele pegava-se estabelecendo diferenças entre as idéias de seu futuro grande amor e a futilidade de seu ex-marido. Na teoria, ela achou Zurawsky lindo, inteligente e engajado. Na prática, era muito fácil alguém de família rica largar tudo para se engajar em causas sociais. Queria ver se precisasse trabalhar todos os dias, sustentar família, e passasse dificuldades financeiras, teria a mesma opinião. Mas preferiu não emitir essa opinião. Guardaria para a primeira briga.

Estavam tão envolvidos que durante o evento todo procuravam acalento no olhar do outro. Não agüentavam mais os cientistas debatendo vários assuntos chatos e inúteis. O simples final de semana parecia uma eternidade perante todos aqueles doutores e estudiosos, mas Gisele não sairia daquela eternidade por nada no mundo. Por uma única pessoa, estava disposta a passar a vida inteira naquele evento chato. Quando um jornalista mauricinho pediu informações sobre um dado estatístico da Suíça, recorreu ao seu afeto sem pestanejar. Zurawsky viu a chance de fugir do evento e dar uma espairecida nos braços de Gisele. Disse que precisava subir ao seu quarto para pegar as informações em uma pasta. Pediu que Gisele o acompanhasse. De porta aberta, no quarto em que estava hospedado ao lado de outro palestrante, abriu o armário e pegou os folders, que caíram no chão. Quando, simultaneamente, agacharam para pegá-los, as bocas se atraíram em poucos segundos. Olhos nos olhos. Ele a beijou com fúria, ela apenas estranhou o mau hálito.”Colonizados por europeus, dá-se um desconto”, justificou a si mesma. Cambaleando, ele fechou a porta e a imprensou na parede. Ela de tailleur arriado e ele de calças abaixadas, loucos e jovens, jogando o peso das cinturas sem esperar nem se importar com o outro. Ele balbuciou algumas palavras num dialeto suíço que para ela eram apenas gemidos de prazer. “Definitivamente, sou uma piranha” pensou ela dando um breve sorriso.

Depois da tórrida cena excitante, foram olhar a cidade de cima, no alto de 20 andares do hotel. Ele falava de como nunca tinha visto São Paulo daquele ângulo e que, apesar da fama do Rio de Janeiro, São Paulo sim era uma cidade maravilhosa. Ela sentia que ele também estava envolvido, mas hesitava em fazer juras de amor, pois sabia que Zurawsky iria embora assim que o congresso terminasse. Voltaram para a palestra. Gisele já estava com as informações para o jornalista mauricinho. Estava desconcertada pela demora, mas estava extremamente feliz. Nunca estivera tão feliz e realizada em toda a sua vida. Realizada como ser humano. Realizada como mulher.
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A solidão fez com que Pedro pensasse que talvez a loucura de Gisele fosse um mal necessário. Não acreditou muito quando ouviu na sua caixa postal a ameaça de suicídio e resolveu partir pra outra. Agora precisava de uma mulher, mesmo que só por uma noite. Mesmo sabendo que ao término dessa noite voltaria a ficar só e continuaria vazio por dentro. Naquele momento, Pedro percebia que Gisele era realmente o amor de sua vida e que toda sua falta de maturidade foi a causa de todo o seu sofrimento. E agora estava sozinho. Sem ao menos Jimmy Hendrix para consolá-lo. Não achara o cachorro desde o Halloween. Chorou mais uma vez, mas disfarçou quando seu amigo da faculdade chegou com uma agenda de telefones e algumas fotos de mulheres para apresentar a ele. O amigo tinha a melhor das intenções, mas Pedro não estava entusiasmado com aquilo. Procurava outra coisa. Procurava mais. Procurava Gisele. Falaria com Gisele.
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Marcaram encontro de madrugada. Gisele pediu para que Zurawsky aparecesse após a colega de quarto dormir. Ela daria um toque no telefone de seu quarto. O combinado era ficarem apenas abraçados a noite toda, quietos debaixo dos lençóis e não trepar novamente. Ele, de pijama, chegou ao quarto e ela, que esperava pelo olho mágico, sussurrou que ele entrasse e fosse direto para debaixo das cobertas. Se fosse visto saindo do quarto em que estava hospedada, seria despedida. Não poderiam conversar muito, com o risco de sua assistente, que dormia na cama ao lado, acordar. Ficaram alguns minutos só se reconhecendo por toques, beijos, cheiros.
Descompromissado, disse que queria levá-la com ele. Ela não acreditava mais. Com Pedro, ela sempre modulou o tom de voz, as opiniões, os gestos, mas com Zurawsky ela poderia ser ela mesma sem correr o risco de ser julgada a qualquer momento. E não queria outra coisa. Poderia ficar horas ali conversando com seu “polonês-russo-cubano-suíço” novo amor. No entanto, com a maestria dos experientes, Zurawsky tapou sua boca e fez sexo com ela com o corpo protegido apenas pelo cobertor. O trauma de seu histórico seminua tinha sido superado. Agora ela estava feliz e mordendo o travesseiro, controlando-se para não gemer e acordar sua assistente.

No dia seguinte, disfarçou com maquiagem os olhos inchados e os chupões no pescoço. Já Zurawsky parecia ter levado uma surra. Término do evento. Não o acompanhou até o aeroporto porque ele iria de táxi acompanhado por outros cientistas e palestrantes. Ele ainda pediu para que o esperasse. Desiludida, Gisele disse que não iria. “A vida é assim mesmo, Sr. Mapa-múndi, cada um segue seu rumo”, advertiu. Quando ele visivelmente triste virou as costas, ela o chamou. E sorriu como agradecimento. Lágrimas na alma.
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De alma lavada, se livrou de todas as roupas de mulher oferecida, de todos os acessórios e de todas as idéias loucas que passavam pela sua cabeça assim que havia terminado com Pedro. Estava renovada, não precisava mais se auto-afirmar. Era a Gisele de sempre, ou melhor, uma nova Gisele. Uma mulher que se conhecia, que se amava, que sabia que dependia dela mesmo para encontrar a felicidade. Planejou uma prova de amor. Romântica, só sabia amar assim, dedicando-se até a exaustão. Exagerada e Intensa. Comprou um maiô e decidiu que atravessaria o país a nado para ir ao encontro de seu amado. Agüentaria nadar até Cuba? Não sabia. Era péssima em Geografia. E deveria estar preparada para morrer, se preciso. Morreria como uma heroína romântica. A mesma de seus poemas que tanto gostava de escrever. Quem sabe não fariam uma homenagem a ela no Programa do Jô Soares depois de morta? Nada mais a prendia naquele lugar. Iria em busca da felicidade. Antes de vestir o maiô, passou numa papelaria e comprou papel contact para revestir o mapa-múndi que levaria consigo.

Chegou em casa e encontrou Pedro, que a visitava com o intuito de renascer todo o amor que ele tinha e pedir perdão a quem ele sempre soube que era o amor de sua vida. Quando ela o encontrou, o tratou com tanta cordialidade que até o feriu. Ao servir biscoitos recheados e uma xícara de café-com-leite, Gisele falou de seus planos loucos de amor, de sair do país e que estava perdidamente apaixonada. Conversavam como velhos amigos que foram um dia. E essa era a prova da qual ela precisava. Não sentia ódio nem rancor por Pedro. E ele, abismado com tanta civilidade e simpatia de sua ex-mulher, desistiu de dizer o motivo da visita. Desistiu porque viu que Gisele estava feliz e, pior, sabia que ela estava feliz sem ele. Sentiu-se culpado, mas desta vez, não sabia se iria superar. Foi embora. Gisele sabia que ele queria reatar o relacionamento, porém, era tarde demais: ela se apaixonou perdidamente por um cara. Pouco tempo depois, foi rejeitada. Quando ele quis voltar atrás, era tarde. É a lei do retorno: Pedro não fôra legal com Gisele e alguém não seria com ele. Simples assim. Pedro precisava amadurecer e aprender a dar valor às pessoas. Acabara de descobrir o que era amar. Ficaria feliz mais tarde quando encontrasse Jimmy Hendrix de volta cavando um buraco em frente à porta da cozinha.

Após a conversa com Pedro, Gisele seguiu seu plano à risca. Já diante do abismo, em frente a um mar revolto que parecia espancar as pedras, em posição de mergulho, questionou-se: “Existe vida após amar demais?”. Fechou os olhos e concluiu. “Sim, existe!”. E se atirou, em posição de mergulho. Zurawsky a esperava, sem saber se um dia ela iria chegar...

FIM